Empate técnico nas pesquisas exige ler margem de erro e intervalos

Diferença de poucos pontos nas intenções de voto pode caber na margem de erro. Entenda a regra prática da imprensa, votos válidos e o que o empate técnico não prova.
Ilustração: HedMidia Notícias (Pexels)
Dois candidatos estão em empate técnico quando a diferença entre seus resultados não basta para afirmar, com o nível de confiança adotado pela pesquisa, que um deles está à frente. Na cobertura eleitoral, a regra prática mais usada na imprensa considera empate quando a distância é menor ou igual ao dobro da margem de erro.
O conceito ajuda a ler levantamentos especialmente em disputas de segundo turno. Uma vantagem numérica de dois ou três pontos percentuais, por exemplo, não significa necessariamente liderança estatisticamente demonstrada. A reportagem da Exame, assinada por Estela Marconi e publicada em 24 de outubro de 2026, reforça que a pesquisa é estimativa das intenções de voto no período das entrevistas — e não determina o resultado das urnas.
No cenário de votos válidos citado pela reportagem, a Veritá apontou Flávio Bolsonaro com 51,3% e Lula com 48,7%; a Ipespe, 50,5% e 49,5%, respectivamente; e a Vox Brasil mostrou Lula com 50,6% e Flávio Bolsonaro com 49,4% no segundo turno. Em todos esses casos, a leitura exige cruzar percentuais com margem de erro e base de cálculo.
O que aconteceu
Pesquisas eleitorais entrevistam uma amostra do eleitorado, não o conjunto dos eleitores. A margem de erro indica a incerteza associada às estimativas obtidas a partir dessa amostra. Se um candidato aparece com 40% das intenções de voto e a margem é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, o intervalo estimado vai de 38% a 42%, considerado o nível de confiança informado pelo instituto.
Em geral, quanto maior a amostra, menor a margem de erro, desde que os demais aspectos da metodologia sejam mantidos. O tamanho da amostra, porém, não é o único fator de precisão. A margem divulgada costuma se referir ao conjunto dos entrevistados; em recortes por região, renda ou faixa etária, o número de participantes é menor e a incerteza pode ser maior.
Para ilustrar o empate técnico, a Exame descreve uma pesquisa com margem de dois pontos: o candidato A com 51% (intervalo de 49% a 53%) e o B com 49% (47% a 51%). Como os intervalos se sobrepõem, o resultado entra na classificação de empate técnico pela regra prática da imprensa. Já um placar de 54% a 46% — diferença de oito pontos, superior ao dobro da margem de dois — ultrapassaria esse limite.
A própria reportagem alerta que o critério do dobro da margem é uma simplificação jornalística. A avaliação estatística adequada da diferença entre dois candidatos considera a incerteza da diferença entre as estimativas e a metodologia do levantamento; a sobreposição dos intervalos individuais não é, isoladamente, um teste estatístico definitivo.
O nível de confiança costuma ser apresentado em 95%. Isso significa que, se o procedimento de amostragem fosse repetido muitas vezes nas mesmas condições, aproximadamente 95% dos intervalos calculados conteriam o resultado verdadeiro da população pesquisada. Não significa probabilidade de 95% de vitória de um candidato, nem elimina problemas de coleta, respostas ou representatividade da amostra.
Institutos podem divulgar resultados com todos os entrevistados e também estimativa de votos válidos. O cenário geral pode incluir brancos, nulos e indecisos; o cálculo de votos válidos exclui brancos e nulos, no critério usado pela Justiça Eleitoral para definir o vencedor. Por isso os percentuais dos candidatos podem subir no recorte de válidos, e a diferença em pontos também muda, embora a ordem de preferência não se altere apenas pela exclusão proporcional dos demais grupos. Para comparar pesquisas, é necessário observar a mesma base de cálculo e períodos semelhantes.
Levantamentos destinados à divulgação devem ser registrados no sistema PesqEle, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), até cinco dias antes da publicação, com contratante, metodologia, amostra, margem de erro e questionário. O registro não significa aprovação ou atestado de precisão pelo TSE. Enquetes em redes sociais, por sua vez, não seguem necessariamente os critérios científicos exigidos das pesquisas eleitorais.
Impacto na prática
Na prática, o empate técnico pode alterar a forma como o público e o mercado de informação interpretam placares apertados: vantagem numérica pequena pode, em hipótese, ser lida como liderança consolidada quando, sob a regra jornalística usual, ainda cabe na margem. Em disputas de segundo turno, isso pode afetar a percepção de quem “está na frente” sem que a pesquisa, por si, prove superioridade estatística.
Em tese, a distinção entre votos totais e válidos também pode mudar a leitura da distância entre candidatos, sem inverter a ordem só pela exclusão proporcional de brancos, nulos e indecisos. Preferências podem mudar até o dia da votação; participação, decisões de última hora e diferenças entre a amostra e o eleitorado que comparece às urnas podem, segundo a própria lógica das fontes, influenciar o resultado final — a pesquisa não é previsão do desfecho.
Se a regra prática do dobro da margem continuar a orientar a cobertura, placares como 51% a 49% com margem de dois pontos devem, em hipótese, ser tratados como empate técnico pela imprensa, enquanto diferenças bem acima desse limiar sugerem vantagem que ultrapassa o critério usual — sempre com a ressalva de que o cálculo estatístico completo depende da metodologia de cada instituto.
Fontes: Exame
Leia mais em: www.mundodosnegocio.com.br