Finanças islâmicas devem medir sucesso pelo impacto, diz banco central da Malásia

Finanças islâmicas devem medir sucesso pelo impacto, diz banco central da Malásia

Em discurso no KLIFF 2026, Abdul Rasheed Ghaffour defendeu que o setor passe da escala aos resultados econômicos e sociais.

Foto: Sora Shimazaki (Pexels)

O governador do Banco Central da Malásia (Bank Negara Malaysia), Abdul Rasheed Ghaffour, afirmou em Kuala Lumpur que as finanças islâmicas precisam deixar de ser avaliadas sobretudo pelo tamanho e passar a ser medidas pelo impacto econômico e social que geram. O discurso especial foi feito em 20 de outubro de 2026, no 21º Fórum de Finanças Islâmicas de Kuala Lumpur (Kuala Lumpur Islamic Finance Forum, KLIFF), e divulgado pelo Banco de Compensações Internacionais (Bank for International Settlements, BIS).

Segundo Ghaffour, após cinco décadas de construção de escala, credibilidade e competitividade, o setor enfrenta riscos climáticos, mudanças demográficas, necessidades de desenvolvimento e fragmentação geopolítica. A pergunta central já não é apenas se as finanças islâmicas conseguem crescer, mas o que esse crescimento torna possível.

O que aconteceu

No endereço especial ao KLIFF 2026, o presidente do Bank Negara Malaysia argumentou que o padrão de sucesso do setor deve se ampliar: de ativos para resultados; de transações para transformação; de inclusão financeira para participação econômica efetiva; de conformidade com a xaria (Shariah) para o cumprimento de seu propósito; e do crescimento das finanças para o crescimento habilitado pelas finanças.

Ele lembrou que a ênfase em resultados está nas raízes históricas das finanças islâmicas, citando complexos otomanos como o de Süleymaniye, sustentados por waqf e voltados a educação, saúde, mobilidade social e bem-estar comunitário. Os recursos importavam, afirmou, mas os desfechos importavam mais.

Na Malásia, micro, pequenas e médias empresas (MSMEs) responderam por quase 40% do Produto Interno Bruto (PIB) e quase 50% do emprego total em 2025, com mais de três quartos delas microempresas. Muitas ainda enfrentam obstáculos além do crédito. Como exemplo, citou a iniciativa de finanças sociais iTEKAD, que combina financiamento com proteção, capacitação e acesso a mercados. O programa apoiou cerca de 16 mil participantes; o governador relatou o caso de uma microempreendedora de Klang que, com financiamento e treinamento, passou a vender em plataformas digitais e a exportar para o Reino Unido via marketplace halal.

Sobre alocação de capital, Ghaffour disse que cada decisão de financiamento molda a economia. Por meio do i-CITA, lançado em 2025, o banco central facilita o aprendizado da indústria em soluções de compartilhamento de risco em segurança alimentar e resiliência climática. Também mencionou o Digital Asset Innovation Hub, aberto em junho de 2025, a revisão do Framework de Contratos Shariah — com Strategy Paper e Exposure Draft previstos neste ano — e o próximo Financial Sector Blueprint, alinhado a prioridades socioeconômicas futuras.

Três prioridades foram listadas: alinhar estratégias e capital a um propósito, inclusive setores de maior valor e energia renovável; inovar em torno de necessidades reais de famílias e empresas, com apoio a micro e pequenas empresas halal; e manter justiça, integridade e empatia no centro das decisões, com a Maqasid Shariah como bússola.

O que isso pode mudar

Se o discurso se traduzir em orientação regulatória e de mercado, bancos, gestores e estudiosos da xaria poderiam passar a disputar espaço menos pelo volume de ativos e mais por resultados mensuráveis — empregos sustentáveis, resiliência climática, segurança alimentar e mobilidade econômica. Isso poderia acelerar produtos de compartilhamento de risco e finanças sociais, e pressionar a indústria a tratar inclusão não como fim, mas como porta para participação produtiva.

Na prática, o próximo blueprint do setor financeiro malaio e a revisão do framework de contratos Shariah podem reforçar essa virada, desde que reguladores, instituições e a indústria atuem de forma coordenada. Em sua visão, a escala mostra o caminho percorrido; o propósito deve permanecer o norte — e essa, disse, é a próxima medida de sucesso das finanças islâmicas.

Fontes: BIS Speeches — Islamic finance for impact - the next measure of success.

Fontes: BIS Speeches

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