Finlândia suspende obras do Google após desmate ilegal de 250 mil árvores

Autoridade finlandesa ordena parada temporária em Muhos e Otanmäki após desmate sem avaliação ambiental. Projeto de IA de € 13 bi do Google gera petição com 93 mil assinaturas.
Foto: Abhishek Navlakha (Pexels)
A Finlândia estima que cerca de 250 mil árvores, em 330 hectares de floresta perto de Muhos, no norte do país, foram derrubadas pelo Google para dar lugar a um centro de dados. Segundo o InfoMoney, com base em reportagem do The Guardian, a companhia teria devastado ilegalmente a área — inclusive a camada superficial do solo — e as autoridades locais já ordenaram a interrupção temporária das obras.
O episódio alimenta um debate nacional sobre o papel do país na expansão global de data centers ligados à inteligência artificial (IA). Em paralelo, mais de 93 mil pessoas assinaram uma petição pedindo regulamentação mais rigorosa e uma taxa para compensar comunidades locais por danos ambientais.
Muhos e a vila de Otanmäki integram um projeto de infraestrutura de IA de € 13 bilhões da empresa, descrito como o maior desse tipo já realizado no país nórdico. O ticker GOGL34 aparece entre os ativos citados na cobertura brasileira.
O que aconteceu
No início deste mês, a Autoridade Finlandesa de Licenciamento e Supervisão (LVV) determinou que o Google suspendesse temporariamente os trabalhos em Muhos e em outro sítio a cerca de 100 km a sudeste, em Otanmäki. O motivo, ainda conforme o relato do jornal britânico reproduzido pelo InfoMoney, foi a ausência das avaliações de impacto ambiental exigidas antes do desmatamento.
Na semana passada, o diretor da Google na Finlândia, Antti Järvinen, pediu desculpas pelo desmate, mas afirmou que a empresa agiu “com base no melhor entendimento que tínhamos da legislação na época”. Um porta-voz disse que a companhia opera no país há 15 anos e que sempre busca cumprir ou superar requisitos de zoneamento, ambientais, de saúde e segurança. A empresa também afirmou estar trabalhando para proteger a qualidade da água em Muhos e planejar o plantio de árvores em 130 hectares — volume que ambientalistas consideram baixo diante do dano.
Além das 250 mil árvores em Muhos, estimativas citadas na reportagem apontam outras 150 mil derrubadas em Otanmäki. Como o corte teria sido ilegal, a madeira dos dois locais não pode ser vendida a fábricas de processamento. A Finlândia concentra 145 novos centros de dados em diferentes fases de planejamento; clima frio, estabilidade geopolítica e geológica e abundância de terras são apontados como atrativos para reduzir custos de energia.
O governo finlandês, após cortes profundos de gastos, estimulou o investimento. Quando os planos do Google foram anunciados no mês passado, o primeiro-ministro Petteri Orpo classificou atrair investimentos como “prioridade máxima” e disse que o acordo “traria benefícios duradouros para ambas as partes”. O projeto também atraiu críticas de Donald Trump, que preferiria a construção nos Estados Unidos e pediu publicamente que a empresa reconsiderasse.
Hanna Halmeenpää, presidente do conselho da SLL, disse ter ficado incrédula com a violação e afirmou ao The Guardian que o sistema finlandês depende da confiança — da qual, em sua visão, o Google se aproveitou. Jussi Kangasharju, da Universidade de Helsinque, argumentou que, embora haja empregos locais limitados, “para a Finlândia, não há benefícios” em nível nacional, com pouco imposto corporativo arrecadado. Em Otanmäki, moradores relatam lobos na vila após o desmate, água de riacho escurecida e perda de habitat de espécies como o pica-pau-de-três-dedos. Veli-Matti Uski, do Ministério do Meio Ambiente, afirmou que o governo monitora o setor e está preparado para propor alterações legislativas se necessário.
Impacto na prática
Para quem vive perto das áreas desmatadas, o caso já pode alterar o cotidiano: ruído de obras, mudanças na fauna e preocupação com a qualidade da água aparecem nos relatos. Em tese, a paralisação determinada pela LVV pode atrasar cronogramas do projeto de € 13 bilhões e reforçar a pressão por regras ambientais mais claras antes de novos canteiros.
No plano nacional, a mobilização de mais de 93 mil assinaturas e o debate sobre o uso de energia renovável para abastecer corporações internacionais sugerem que a Finlândia pode recalibrar o equilíbrio entre atração de capital de tecnologia e proteção florestal. Hipoteticamente, se a legislação avançar e a fiscalização se tornar mais restritiva, outros empreendimentos de data centers no país — e, por extensão, a corrida europeia por capacidade de IA — podem enfrentar prazos e custos maiores, sem garantia de que o investimento migre para outro território.
O embate em Muhos e Otanmäki ilustra, a partir das fontes, como a disputa por infraestrutura de inteligência artificial pode colidir com normas ambientais e com a confiança pública: o desfecho ainda depende das avaliações que faltavam, das medidas anunciadas pela empresa e da resposta do governo finlandês.
Fontes: InfoMoney
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