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Genealogia genética ajuda a esclarecer crimes sem solução há décadas

Genealogia genética ajuda a esclarecer crimes sem solução há décadas

Genealogia genética investigativa e inteligência artificial ajudam a reabrir casos frios nos EUA, com avanço em Illinois e alerta sobre privacidade.

Foto: Rodolfo Gaion (Pexels)

Uma técnica que cruza DNA de cenas de crime com árvores genealógicas montadas a partir de bancos comerciais de ancestralidade está reabrindo investigações paradas há décadas nos Estados Unidos. O assassinato de Randy Gail Sperino, em 1993, em Illinois, mostra como a genealogia genética investigativa — e a inteligência artificial usada para organizar provas — pode apontar suspeitos quando os bancos forenses tradicionais falham.

Empresas como a Othram, de Houston, afirmam ter ajudado a esclarecer milhares de casos. Especialistas, porém, alertam para riscos de privacidade: parentes que nunca autorizaram o uso dos próprios dados genéticos podem ser atingidos indiretamente.

O que aconteceu

Sperino, de 34 anos, foi vista pela última vez em 9 de novembro de 1993 ao entrar em uma picape em Granite City, Illinois. Horas depois, o corpo foi encontrado em um campo próximo, vítima de trauma por força contundente. O DNA da cena não bateu com bases padrão da polícia. Por três décadas, o Departamento do Xerife do Condado de Madison ouviu centenas de pessoas. O crime parecia rumar para o conjunto de mais de 250 mil homicídios sem solução nos EUA.

No ano passado, os detetives enviaram evidência genética à Othram. A inspiração veio das técnicas que, em 2018, ajudaram a identificar Joseph James DeAngelo, o Golden State Killer. Diferente do teste forense tradicional, que busca comparação direta com alguém conhecido, o método pode localizar parentes genéticos distantes do indivíduo desconhecido, a partir de dados enviados por familiares a plataformas comerciais de ancestralidade.

Sem o perfil do próprio assassino nas bases, cientistas usaram perfis de parentes mais afastados e chegaram a um homem da família. “Essa pista abriu o caso”, disse o capitão Tim Lawrence. A pista levou a Albert “Buddy” Zigler, de 70 anos, que confessou o assassinato e foi acusado em maio deste ano. O filho da vítima, Wes Sperino, afirmou em coletiva: “Finalmente tenho fechamento e finalmente sei quem fez isso.”

O presidente-executivo da Othram, David Mittelman, compara a técnica a um GPS: o DNA seria o sinal, e registros públicos, obituários e dados de censo formariam o mapa familiar. Ele reforça que a ciência só vai até certo ponto; depois entra “uma cascata de passos investigativos”.

No caso Sperino, a inteligência artificial também entrou em cena. Com mais de 2.000 páginas acumuladas desde 1993, a equipe usou a plataforma Centerline AI, da CentralSquare, para analisar documentos, reconstruir cronologias e apontar evidências para o teste de DNA. Lawrence disse que a interação era como um chatbot e que a ferramenta ajudou a avaliar se Zigler estava sendo sincero — mas que, em algum momento, é preciso “deixar a tecnologia para trás” e ir atrás das pessoas.

Mittelman admite limites: sem DNA, a técnica não se aplica. Segundo a BBC, firmas como a Othram só usam plataformas em que o usuário consentiu com o cruzamento policial. Mesmo assim, Denise Syndercombe Court, professora de genética forense no King’s College London, aponta “preocupações significativas de privacidade”, porque parentes podem não ter dado consentimento. Muitos casos dependem de doações ou crowdfunding. A técnica já aparece na Suécia, na Dinamarca e na Austrália, mas ainda não no Reino Unido, onde o Home Office avalia a adoção.

O que isso pode mudar

Se a genealogia genética investigativa continuar a se espalhar, mais famílias de vítimas de crimes antigos poderiam obter nomes e, em alguns casos, confissões — desde que haja DNA aproveitável e recursos para os laboratórios. Ao mesmo tempo, o debate sobre consentimento indireto tende a crescer: o opt-in de um usuário pode expor parentes que nunca tocaram em um kit de ancestralidade.

A combinação com inteligência artificial para triar arquivos volumosos pode acelerar o trabalho policial, mas, como Lawrence lembrou, a tecnologia só funciona tão bem quanto o investigador. Sem financiamento estável, a expansão pode ficar desigual — e o estudo do Home Office deve definir se o Reino Unido entra nesse caminho.

Fontes: BBC Technology

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