Ghaffour no KLIFF pede finanças islâmicas medidas por impacto e não só por escala

Ghaffour no KLIFF pede finanças islâmicas medidas por impacto e não só por escala

Governador do Bank Negara Malaysia, no KLIFF 2026, defende avaliar finanças islâmicas por resultados econômicos e sociais, não apenas pelo tamanho do mercado.

Foto: RDNE Stock project (Pexels)

O governador do Banco Central da Malásia (Bank Negara Malaysia), Abdul Rasheed Ghaffour, afirmou no 21º Fórum de Finanças Islâmicas de Kuala Lumpur (Kuala Lumpur Islamic Finance Forum, KLIFF) 2026, em 20 de outubro de 2026, que o setor precisa ser avaliado pelo impacto que gera, e não apenas pelo tamanho do mercado. Em discurso especial publicado pelo Banco de Compensações Internacionais (Bank for International Settlements, BIS), sustentou que a pergunta central deixou de ser se as finanças islâmicas conseguem competir e crescer.

Segundo Ghaffour, o desafio é mostrar relevância diante de riscos climáticos, mudança demográfica, demandas de desenvolvimento e fragmentação geopolítica. O sucesso, disse, deve ser medido pelo que o crescimento permite alcançar.

O que aconteceu

Na abertura do fórum, o governador descreveu décadas de avanço em credibilidade, escala, competitividade e inovação. Com o tema deste ano do KLIFF, pediu mudança de foco: de escala para resultados. Em vez de perguntar só se o setor pode crescer, colocou o que esse crescimento habilita, quais oportunidades cria e quais resultados entrega.

Ghaffour lembrou que a ênfase em resultados está nas bases das finanças islâmicas, historicamente vistas como meio para objetivos econômicos e sociais. Citou os complexos külliye do Império Otomano, como o Complexo Süleymaniye, sustentados por waqf, que reuniam escolas, hospitais, bibliotecas, serviços sociais e comércio em um ecossistema voltado a educação, saúde, mobilidade social e bem-estar comunitário.

Propôs alargar a medida de sucesso: de ativos para resultados; de transações para transformação; de inclusão financeira para participação econômica significativa; de conformidade com a Shariah para cumprimento do propósito da Shariah; e de crescimento das finanças para crescimento viabilizado pelas finanças.

Na Malásia, destacou que micro, pequenas e médias empresas (micro, small and medium enterprises, MSMEs) responderam por quase 40% do produto interno bruto (PIB) e quase metade do emprego em 2025, com mais de três quartos sendo microempresas. Muitas ainda enfrentam obstáculos além do crédito. Como exemplo, apontou a iniciativa de finanças sociais iTEKAD, que combina financiamento, proteção, capacitação e acesso a mercados e já apoiou quase 16 mil participantes. Relatou o caso de Puan Fauziah, microempreendedora de Klang que, com apoio e treinamento, passou a vender em plataformas digitais e a exportar para o Reino Unido via marketplace halal.

Tratou da alocação de capital como gestão da economia e citou o i-CITA, de 2025, para soluções de compartilhamento de risco em segurança alimentar e resiliência climática. Mencionou o Digital Asset Innovation Hub (junho de 2025), a revisão do Shariah Contract Framework, com Strategy Paper e Exposure Draft neste ano, e o próximo Financial Sector Blueprint. Como prioridades, listou alinhar capital a um propósito — inclusive energia renovável —, inovar em torno de necessidades reais, com apoio a MSMEs halal, e manter justiça, integridade e empatia no centro, com a Maqasid Shariah como bússola.

O que isso pode mudar

Se reguladores e o setor adotarem essa régua, instituições islâmicas poderiam reportar e desenhar produtos menos pelo volume de ativos e mais por resultados sociais e produtivos. Isso poderia redirecionar fluxos para setores de maior valor, energia renovável e negócios com lacunas de financiamento, sobretudo microempreendedores.

O molde do iTEKAD — crédito, proteção, capacitação e mercados — poderia virar referência para inclusão além da conta ou do empréstimo. A revisão de contratos Shariah e o próximo blueprint na Malásia poderiam acelerar estruturas de compartilhamento de risco e usos de tecnologia com valor econômico real. O alcance, porém, dependeria da cooperação entre reguladores, instituições, estudiosos da Shariah e a indústria; sem isso, o discurso de impacto tenderia a permanecer aspiracional.

Fontes: BIS Speeches – Islamic finance for impact - the next measure of success

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