Governo britânico não sabe quanto gasta em transformação digital

Whitehall admite que sistemas financeiros não geram cifra anual comparável do gasto em transformação digital no setor público britânico.
Foto: Rafael Minguet Delgado (Pexels)
O governo do Reino Unido admite que seus sistemas financeiros não conseguem gerar números anuais consistentes sobre quanto departamentos e órgãos públicos gastam em transformação digital. Anos de promessas esbarram na falta de uma cifra comparável.
Segundo o The Register, o setor público britânico desembolsa mais de 26 bilhões de libras por ano em tecnologia digital, mas essa estimativa ampla não permite um detalhamento homogêneo por pasta.
O que aconteceu
Em resposta a um relatório de junho do Comitê de Ciência e Tecnologia do Parlamento, Whitehall concordou com a intenção de publicar dados anuais sobre gastos digitais e orientados a dados, porém afirmou não considerar a medida praticável no momento. Os sistemas de finanças existentes, disse o governo, não fornecem dados consistentes, confiáveis e comparáveis entre departamentos.
A resposta oficial acrescentou que o Executivo está aberto a essa direção e trabalhará com o Tesouro de Sua Majestade (HM Treasury) para avaliar como desenvolver o acompanhamento ao longo do tempo. O comitê havia alertado que o gasto está fragmentado e que falta um plano claro para um Estado digital.
A presidente do colegiado, Dame Chi Onwurah, prevista para discursar no Parlamento nesta quinta-feira, criticou o descompasso entre discurso e transparência. Não falta entusiasmo sobre como a tecnologia pode melhorar serviços públicos e reduzir custos, disse ela; ainda assim, o governo não apresenta um quadro claro do quanto se gasta em transformação digital.
Num momento em que ministros pedem aos contribuintes financiamento significativo em tecnologia, é preocupante que não consigam mostrar para onde vai o dinheiro nem como se mede o retorno, afirmou Onwurah, pedindo solução urgente.
No verão, o governo extinguiu o Departamento de Ciência, Inovação e Tecnologia (DSIT), redistribuindo atribuições entre o Departamento de Digital, Cultura, Mídia e Esporte, o Cabinet Office e o recém-criado Departamento de Negócios, Inovação, Ciência e Comércio. Para Onwurah, a extinção reforçou dúvidas sobre quem lidera a transformação digital e pediu revisão da resposta com liderança mais clara.
O comitê também pediu o fim da participação da Palantir na Plataforma de Dados Federada (FDP) do Serviço Nacional de Saúde (NHS), citando soberania e risco de aprisionamento a fornecedor. A relação já foi criticada por contratos anteriores de cerca de 60 milhões de libras sem concorrência. O governo disse que revisará o contrato segundo processos padrão, para decidir se exerce a extensão opcional de dois anos, sem compromisso de saída antecipada.
Qualquer rescisão precisaria cumprir os termos do contrato e a lei de compras públicas. Se a extensão for recusada, haveria controles de transição para proteger a operação e os pacientes. Onwurah elogiou o compromisso de uma estratégia contra o aprisionamento e de maior capacidade interna, mas pediu que ministros acionem a cláusula de saída do FDP e reduzam a dependência de poucas grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos. A Palantir mantém que sua tecnologia oferece bom custo-benefício e ajuda o NHS a ganhar eficiência.
O que isso pode mudar
Se o Tesouro e os departamentos avançarem num padrão comum de contabilidade digital, o Parlamento e o público poderiam, em tese, comparar investimentos e cobrar resultados com mais rigor. Sem números comparáveis, a pressão por novas verbas tende a seguir mais política do que baseada em evidência.
A revisão do contrato com a Palantir também pode sinalizar se Londres endurecerá a postura diante de fornecedores estrangeiros de software crítico. Uma decisão de não prorrogar o FDP poderia abrir espaço a alternativas, embora qualquer transição precise preservar a continuidade dos serviços de saúde.
No curto prazo, o mais provável é um debate parlamentar mais agudo sobre transparência e liderança digital, sem garantia imediata de estatísticas anuais. A urgência pedida por Onwurah sugere que a questão deve voltar à ordem do dia enquanto o governo ainda não consegue dizer, com precisão, quanto realmente gasta para digitalizar o Estado.
Fontes: The Register
Fontes: The Register
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