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Ideia liga desejo de empreender ao avanço de Flávio sobre Lula no 2º turno

Ideia liga desejo de empreender ao avanço de Flávio sobre Lula no 2º turno

Pesquisa Meio/Ideia mostra cisão: entre quem quer negócio próprio, Flávio tem 62%; entre quem valoriza carteira assinada, Lula lidera com 65%.

Ilustração: Rô Acunha (Pexels)

O desejo de abrir o próprio negócio ou trabalhar por conta própria passou a influenciar a identificação política de parte dos brasileiros e ajuda a explicar o apoio a Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial, segundo avaliação de Cila Schumann, do Instituto Ideia, reportada pelo InfoMoney neste sábado (24). A pesquisadora identifica uma mudança nas expectativas de prosperidade de um eleitorado cada vez menos ligado ao modelo tradicional de emprego formal.

Levantamento Meio/Ideia divulgado nesta semana aponta que 43% dos entrevistados associam melhorar de vida a ter um negócio próprio ou trabalhar por conta própria. Outros 32% ligam a ascensão econômica à conquista de um emprego com carteira assinada e direitos garantidos. A diferença se reflete nas intenções de voto: entre quem deseja empreender, Flávio aparece com 62% das preferências, ante 34% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT); entre quem valoriza o emprego formal, o presidente lidera com 65%, contra 30% do senador.

Em entrevista ao programa Mapa de Risco, do InfoMoney, na sexta-feira (23), Cila afirmou que a divisão não traduz apenas a situação econômica atual dos eleitores, mas também a forma como imaginam construir o próprio futuro — uma cisão de expectativas que, na leitura dela, tensiona a comunicação política na reta final da campanha.

O que aconteceu

Para a pesquisadora, o crescimento do trabalho autônomo e das atividades informais alterou a relação de parte dos brasileiros com o emprego. Controlar horários, buscar diferentes fontes de renda e não depender de um único empregador passou a representar, nesse recorte, uma via de ascensão econômica. “Essa promessa de prosperidade ligada ao seu próprio esforço, ela tem, sim, uma questão ideológica. Se eu me esforçar, eu vou conseguir. Se eu for fazer o meu, eu vou ganhar mais do que ter um patrão”, disse Cila.

Essa transformação, segundo ela, ainda não foi plenamente compreendida pelo PT, cuja trajetória está associada ao movimento sindical e à defesa do emprego formal. “Quando a gente olha para o PT e para o Lula, que nasceram ali nos sindicatos com emprego formal, as pessoas hoje querem o trabalho, mas elas querem a liberdade, e isso tem que ter um entendimento a respeito”, afirmou.

A pesquisadora avalia que o governo Lula não conseguiu estabelecer comunicação consistente com esse público ao longo do mandato. Na reta final da campanha, o presidente passou a enfatizar medidas voltadas aos microempreendedores individuais (MEIs), mas a aproximação teria ocorrido depois de um período em que essas aspirações receberam pouca atenção, na leitura dela.

O levantamento também indica que a preferência política não depende apenas da renda. Entre entrevistados da classe C que desejam abrir um negócio, Flávio alcança 67% das intenções de voto. Lula, por sua vez, registra 63% entre aqueles da mesma faixa de renda que preferem um emprego formal.

A preferência pelo trabalho autônomo, contudo, não equivaleria necessariamente a rejeição a direitos sociais. Cila afirma que pesquisas qualitativas identificam trabalhadores interessados em preservar a liberdade de organizar a rotina, mas que também esperam garantias mínimas em situações de doença, acidente ou perda de renda. “O trabalhador hoje quer estabilidade, mas ele quer liberdade”, resumiu. Ela citou entregadores por aplicativo, que podem rejeitar a estrutura tradicional da carteira assinada e, ainda assim, desejar proteção se ficarem temporariamente impossibilitados de trabalhar.

Impacto na prática

Na prática, o recorte Meio/Ideia sugere que decisões de voto podem acompanhar não só a renda atual, mas a ideia de como a pessoa imagina “melhorar de vida” — se pelo negócio próprio ou pelo emprego formal. Em hipótese, essa cisão pode afetar a leitura de políticas de trabalho e de proteção social na campanha e, em tese, pressionar futuros governos a equilibrar autonomia e garantias mínimas, como a própria pesquisadora aponta ao falar do desafio dos próximos mandatos.

Para parte do eleitorado mapeado, a defesa de programas sociais e direitos trabalhistas, isoladamente, pode não assegurar preferência por partidos de esquerda entre eleitores de menor renda — leitura que a análise de Cila ajuda a explicar, sem prever resultado das urnas. Em um país em disputa acirrada, a divergência entre modelos de prosperidade pode, segundo o quadro apresentado, continuar moldando a identificação política para além do dia do voto.

Se a leitura do Ideia se confirmar como tendência de campanha, o eixo empreender versus carteira assinada pode seguir como um dos filtros com os quais o eleitorado interpreta promessas econômicas — hipótese que, por ora, permanece aberta ao veredito das urnas e a novos levantamentos.

Fontes: InfoMoney

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