Indecisos veem Flávio à frente no debate da Globo, mas maioria segue sem voto

Pesquisa qualitativa da Alfa Inteligência dá 21 menções a Flávio e 18 a Lula após o debate da Globo; 19 participantes seguem sem voto definido.
Ilustração: Damir K (Pexels)
Uma pesquisa qualitativa da Alfa Inteligência com eleitores indecisos apontou Flávio Bolsonaro como o candidato de melhor desempenho no debate presidencial da TV Globo, realizado em 23 de outubro de 2026. Na tabulação do instituto, ele recebeu 21 menções favoráveis, contra 18 do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A vantagem não bastou para converter a avaliação em decisão de voto para a maioria dos participantes.
No resultado final, 19 eleitores continuaram indecisos, enquanto 12 indicaram voto em Flávio Bolsonaro e 10 em Lula. Os números refletem respostas dos grupos de discussão e não representam percentuais ou estimativas de intenção de voto da população brasileira, conforme a pesquisa relatada pela Exame em 24 de outubro. O levantamento reuniu seis grupos com participantes de 30 a 50 anos, da classe C, de diferentes regiões, para medir aceitação, rejeição e definição de voto.
O que aconteceu
Segundo a Alfa Inteligência, uma parcela expressiva saiu com as mesmas dúvidas de antes. Alguns falaram em “seis por meia dúzia”; outros disseram que poderiam escolher o “menos pior” ou anular o voto. A avaliação não foi uniforme ao longo do programa.
Flávio melhorou a recepção ao tratar de segurança pública no terceiro bloco, quando também entraram educação e endividamento. Propostas como o fim das “saidinhas”, a ampliação do trabalho prisional e o endurecimento de penas ligadas a facções tiveram boa receptividade. No Nordeste, o discurso sobre criminalidade conquistou apoio até de quem o havia criticado. Ideias de formalização de trabalhadores, educação em tempo integral e o uso da Caixa Econômica Federal como “Banco da Prosperidade” para renegociar dívidas também foram bem avaliadas. No Norte e no Centro-Oeste, houve elogios a ensino técnico e empreendedorismo, com dúvidas sobre viabilidade. No Sul e no Sudeste, houve rejeição a informações sobre auxílios ao Rio Grande do Sul e à defesa de um policial envolvido na morte de uma criança. Entre quem passou a apoiar Flávio, a segurança pública foi o principal fator.
Lula teve avaliações mais favoráveis no primeiro bloco no Nordeste, Norte e Centro-Oeste, com destaque para programas, saúde e políticas sociais. No Sul e no Sudeste, a leitura ficou dividida entre quem aprovou o aumento real do salário mínimo e a isenção do Imposto de Renda e quem achou que medidas perto da eleição deveriam ter vindo antes. No segundo bloco — políticas sociais, dívida pública e saúde —, a retomada da pandemia de Covid-19, inclusive a crise de oxigênio em Manaus, foi vista como pertinente no Norte e no Centro-Oeste; outros criticaram o tempo dedicado a Jair Bolsonaro (PL), sintetizado em “tudo é Bolsonaro pai”. Flávio teve menções positivas ao defender a expansão da “Tabela SUS Paulista”. Na educação, Lula foi bem recebido ao citar o Pé-de-Meia. Entre quem passou a indicar voto nele, programas sociais foram o motivo principal — mais como desempate do que como entusiasmo.
O pior momento, segundo a Alfa, foram os últimos oito minutos de tema livre: troca de acusações, associações de Flávio a controvérsias do Banco Master e referências ao patrimônio e à vida pessoal de Lula. Participantes falaram em “lavagem de roupa suja” e “imaturidade”. Em alguns relatos, a rejeição aumentou a disposição de votar nulo e comprometeu propostas anteriores.
A indecisão também se ligou à dificuldade de entender financiamento e execução das propostas. Custo de vida, inflação nos supermercados, atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS), violência e endividamento foram citados como temas que mereciam mais atenção. No Sul e no Sudeste, o debate sobre apostas online (bets) gerou críticas às gestões atual e anterior; no Nordeste, houve cobrança por políticas para quem paga despesas básicas sem benefícios. O estudo registrou desconfiança em promessas e frustração com a ausência de outras opções no segundo turno. A metodologia previu oito a dez participantes por grupo, com um em cada macrorregião e um de controle; por ser qualitativo, não tem margem de erro nem pode ser extrapolado ao eleitorado nacional.
Impacto na prática
Para os participantes ouvidos, o confronto pode ter reforçado a sensação de empate e a cautela na escolha do voto, sobretudo após o bloco final. Em tese, preocupações com custo de vida, endividamento, saúde e segurança — e a dúvida sobre financiamento das propostas — podem manter parte desse público atento a sinais de política econômica e social nas próximas semanas da campanha.
Em hipótese, um país com disputa apertada e indecisos pouco persuadidos por um grande debate televisivo pode ver famílias e agentes econômicos acompanharem com mais reserva declarações sobre salário, imposto, crédito e gasto público, sem que isso antecipe, por si só, movimento de mercados. O que a Alfa descreve é percepção de grupos restritos, não um termômetro nacional. O levantamento sugere que propostas temáticas tiveram melhor receptividade do que o embate pessoal final — sem projetar resultado eleitoral nem comportamento da economia.
Fontes: Exame
Leia mais em: www.mundodosnegocio.com.br