Irlanda alerta no BIS que crime econômico cresce e exige ação conectada

Vice-governador irlandês diz no BIS que fraude atingiu 10,6% da população em 2025 e pede colaboração contra o crime econômico.
Ilustração: Rafael Minguet Delgado (Pexels)
O Banco de Compensações Internacionais (Bank for International Settlements, BIS) divulgou as observações de Colm Kincaid, vice-governador do Banco Central da Irlanda, feitas em 9 de outubro de 2026 na Irish Criminal Justice Agencies Conference, em Dublin. O eixo é direto: o crime econômico cresce e nenhuma instituição, sozinha, consegue detê-lo.
Sob o título Closing the gaps - collaboration in the fight against economic crime, Kincaid defende propriedade clara das responsabilidades e ação conectada entre governo, reguladores, justiça, empresas e apoio às vítimas — em linha com a Estratégia do Advisory Council Against Economic Crime and Corruption.
O que aconteceu
O discurso trata o crime econômico como dano público, não como jargão técnico. Fraudes e golpes, segundo o Consumer Finance Risk Monitor 2026 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), já figuram como o principal risco aos consumidores financeiros no plano internacional. No Outlook regulatório irlandês de 2026, o Banco Central da Irlanda elevou o tema a prioridade, citando escala da ameaça e impacto na confiança e na estabilidade financeira.
Os números domésticos reforçam o alerta. A fraude é a forma mais comum de crime pessoal na Irlanda: 10,6% da população relatou ter sido vítima em 2025, ante 3,9% em 2019 e 2,4% em 2015. A geografia do delito migrou da rua para o telefone, a plataforma online e o laptop — mas as consequências seguem concretas. Pesquisa preliminar citada por Kincaid indica que quase três quartos das vítimas sofrem ao menos um efeito não monetário, como erosão da confiança em instituições financeiras, impactos à saúde ou percepção de vulnerabilidade.
O mapa vai além da fraude: lavagem de dinheiro, financiamento do terrorismo, corrupção, abuso de mercado, serviços financeiros não autorizados, evasão de sanções e delitos fiscais. Em redes transfronteiriças, cada ator — banco, empresa de tecnologia, operadora, regulador, polícia — costuma ver só um fragmento. A resposta precisa juntar esses pedaços a tempo de prevenir o dano, interromper a atividade e responsabilizar os autores.
No papel do Banco Central da Irlanda, Kincaid descreve supervisão de controles de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, proteção do perímetro regulatório e regras novas para apoiar consumidores vítimas de fraude, com direitos de reembolso definidos no nível da União Europeia. Em 2025, a autoridade tornou-se o primeiro Trusted Flagger estatutário irlandês para fraudes financeiras online. Uma revisão temática sobre fraude de pagamento autorizado por impulso no setor bancário foi concluída, com comunicação de resultados ainda por vir.
Para transformar mandatos em colaboração, o discurso elenca quatro disciplinas: olhar o problema pelos olhos de quem é prejudicado; construir entendimento compartilhado da ameaça; acelerar o compartilhamento de informações com canais legais; e aprofundar a cooperação internacional. Cita a National Payments Strategy e o compromisso de legislar uma base compartilhada de fraude, o artigo 75 do regulamento europeu antilavagem e a futura regulamentação de serviços de pagamento, que exigirá arranjos de troca de dados entre prestadores.
O que isso pode mudar
Se a lógica de propriedade clara e ação conectada avançar de fato — hipótese que depende de legislação, recursos e adesão de plataformas e bancos —, a Irlanda e o arcabouço europeu podem reduzir as frestas que criminosos exploram entre setores e jurisdições. Uma base compartilhada de fraude e as parcerias previstas na norma antilavagem tenderiam, em tese, a tornar sinais isolados acionáveis quando combinados.
Para o leitor de negócios, o recado publicado pelo BIS sugere pressão contínua sobre controles, reporte de suspeitas e apoio ao cliente após o golpe — e sobre plataformas digitais, cobradas a impedir conteúdo ilegal na origem. O crime mudou de endereço, da rua para o laptop; o teste é se a colaboração fechará as lacunas na mesma velocidade.
Fontes: BIS Speeches
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