Lagarde no IMFC vê economia resiliente e alerta para inflação e geopolítica

Em Bangcoc, a presidente do BCE disse que a economia global resistiu à incerteza, mas riscos de crescimento e inflação seguem assimétricos.
Foto: Rafael Minguet Delgado (Pexels)
A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, afirmou que a economia mundial tem se mostrado surpreendentemente resiliente diante de elevada incerteza, em declaração ao Comitê Monetário e Financeiro Internacional (IMFC, na sigla em inglês) na 54ª reunião do colegiado, durante as Reuniões Anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Bangcoc, em 17 de outubro de 2026. O texto foi publicado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS).
Segundo Lagarde, tensões comerciais, medidas protecionistas e o conflito no Oriente Médio continuam a pressionar confiança e mercados de energia, enquanto o avanço da Inteligência Artificial (IA) tem ajudado a sustentar atividade e comércio. Os riscos, porém, seguem inclinados para baixo no crescimento e para cima na inflação.
O que aconteceu
Na zona do euro, a atividade resistiu a ventos adversos e ao choque energético em curso. O crescimento foi amplo na maioria dos países e setores no primeiro semestre de 2026. As projeções de setembro da equipe do BCE apontam expansão de 0,9% em 2026, 1,4% em 2027 e 1,5% em 2028. Com o enfraquecimento gradual do choque energético no médio prazo, a demanda interna tende a se beneficiar da recuperação da renda real, de um mercado de trabalho resiliente e de gastos públicos em infraestrutura e defesa, além de investimentos em IA e tecnologias digitais.
A inflação ao consumidor subiu para 3,8% em setembro, sobretudo por energia, com contribuição menor de alimentos e serviços. A inflação núcleo avançou ligeiramente para 2,5%. Os salários, até agora, não mostraram resposta material ao choque energético. A expectativa é de inflação bem acima da meta até o primeiro semestre de 2027, com retorno próximo ao alvo perto do fim de 2027. Riscos de alta incluem o conflito no Oriente Médio e a guerra da Rússia contra a Ucrânia.
O Conselho do BCE elevou as taxas básicas em 25 pontos-base em setembro, após movimento igual em junho. Lagarde disse que o choque energético é grande demais para ser “olhado de lado”, mas que uma resposta mesurada segue adequada. Em estabilidade financeira, bancos da zona do euro mantêm capital, liquidez e lucratividade sólidos, enquanto tensões geopolíticas, desafios fiscais e a adoção acelerada de IA seguem como fontes de preocupação. Em pagamentos, o Eurosistema prepara o euro digital, com piloto interno de 12 meses na segunda metade de 2027, e avançou com a solução Pontes de tecnologia de registro distribuído (DLT), em operação desde 21 de setembro.
O que isso pode mudar
Se o quadro descrito por Lagarde se confirmar, a política monetária europeia pode continuar calibrada de forma cautelosa, com decisões condicionadas a dados de inflação, dinâmica subjacente e transmissão financeira. Uma resolução sustentável de conflitos geopolíticos ou um menor repasse de energia aos preços poderia aliviar a trajetória inflacionária; o oposto — um choque energético mais intenso ou persistente — poderia exigir resposta mais firme.
No plano estrutural, o reforço da união de poupança e investimento, o acesso a capital de risco e a difusão de tecnologias na economia da IA podem ampliar a capacidade de crescimento da zona do euro. Em pagamentos, a adoção da regulamentação do euro digital até o fim de 2026 e o avanço de iniciativas como Appia poderiam acelerar um ecossistema europeu de ativos tokenizados assentado em dinheiro do banco central. Já o fortalecimento do papel do FMI na rede global de segurança financeira, com as revisões citadas por Lagarde, pode melhorar a coordenação multilateral diante de desequilíbrios e choques externos.
Fontes: BIS Speeches — IMFC Statement
Fontes: BIS Speeches — IMFC Statement
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