Manobra da Meta manteve Zuckerberg na Califórnia diante de imposto bilionário

Zuckerberg quase listou a casa em Palo Alto por causa da Proposição 40; Meta criou ações Classe C sem voto e amarrada a oito anos de residência.
Foto: Mindaugas Skrupskelis (Pexels)
Mark Zuckerberg chegou a poucos dias de colocar à venda a mansão em Palo Alto para escapar de um possível imposto sobre o patrimônio na Califórnia. A Meta Platforms respondeu com uma manobra societária pouco usual: criar uma nova classe de ações sem direito a voto.
O desenho, detalhado em formulário enviado à Securities and Exchange Commission (SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos), permite ao fundador levantar caixa sem diluir o controle acionário e amarra boa parte dessa liquidez à permanência no estado — ou onde a Meta mantiver a sede — por oito anos.
O que aconteceu
Segundo relatos do MarketWatch e da Fortune baseados no mesmo documento regulatório, Zuckerberg alertou conselheiros de que poderia deixar a Califórnia caso a Proposição 40, proposta de imposto único de cerca de 5% sobre ativos de bilionários residentes no estado, fosse aprovada nas urnas em 3 de novembro. Em jantar do conselho em 9 de setembro, ele chegou a dizer que planejava listar a residência de Palo Alto quatro dias depois.
O risco não era só o valor da conta. Zuckerberg detém cerca de 60,6% dos votos da Meta com ações Classe B de voto múltiplo, embora sua fatia econômica seja bem menor. Vender essas ações para pagar um eventual tributo as converteria em papéis comuns e poderia reduzir seu poder de voto a cerca de 53%, segundo o que ele próprio teria dito ao diretor independente Robert Kimmitt em julho.
Após meses de negociação tensa com um comitê especial do conselho — que chegou a discutir renúncia —, o acordo saiu em meados de setembro e foi selado pelo board em outubro. Todos os acionistas receberão, na proporção de um para um, ações Classe C sem voto. Zuckerberg poderá vender de imediato 20% desses novos papéis para cobrir uma eventual fatura fiscal; os 80% restantes ficam “grampeados” a condições de residência e de liderança em tempo integral, com liberação gradual ao longo de oito anos. A estrutura também abre espaço para a Meta remunerar funcionários, fazer aquisições e captar capital sem corroer a maioria de voto do fundador, num momento em que a companhia amplia gastos em inteligência artificial e reduziu recompras de ações.
Em troca, Zuckerberg desistiu de um pacote salarial mais generoso, manteve o salário simbólico de US$ 1 e se comprometeu a permanecer na Califórnia ou na jurisdição da sede da Meta. As novas ações devem passar a valer em janeiro de 2027.
O que isso pode mudar
Se a Proposição 40 passar, o arranjo pode permitir que Zuckerberg quite uma conta bilionária sem abrir mão do controle da Meta — e sem precisar mudar de estado às pressas. Se a medida fracassar nas urnas, como algumas pesquisas recentes sugerem após forte campanha contrária, a Classe C ainda assim pode redesenhar o financiamento da empresa, reduzindo a dependência de recompras para proteger o poder do fundador.
Para investidores, o precedente importa: uma companhia de tecnologia de capital aberto usou engenharia societária para alinhar liquidez pessoal do controlador, política tributária estadual e ambições de expansão. O mercado pode passar a olhar com mais atenção a cláusulas de residência e a classes sem voto em outras big techs. Ainda assim, qualquer ganho de flexibilidade financeira da Meta dependerá de como — e se — a empresa usará de fato esses papéis para captar recursos nos próximos anos.
Fontes: MarketWatch / WSJ Markets; Fortune
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