Metais preciosos caem com juros altos enquanto déficits limitam o tombo

Ouro recua mais de 20% e prata, platina e paládio mais de 40% desde o pico de janeiro, segundo o CME Group, com Fed sob Warsh e déficits ainda a sustentar preços.
Ilustração: Atlantic Ambience (Pexels)
Depois de uma alta intensa em 2025 e no começo de 2026, os preços dos metais preciosos recuaram com força a partir do pico do fim de janeiro. Entre o fim de janeiro e meados de outubro, o ouro caiu mais de 20%, enquanto prata, platina e paládio despencaram mais de 40%, segundo análise do CME Group.
O principal gatilho foi a virada nas expectativas de política monetária: o mercado deixou de precificar cortes de juros e passou a antecipar altas. Mesmo assim, os metais ainda estão entre 24% e 100% acima dos níveis do início de 2025, a depender do ativo — sinal de que forças de demanda seguem a sustentar o preço.
A leitura cruza o aperto dos bancos centrais com déficits persistentes, inflação acima da meta na maior parte das economias, tensões geopolíticas e compras oficiais de ouro. O quadro é de mercado em baixa no curto prazo, com freios que, em tese, podem limitar um tombo ainda maior.
O que aconteceu
Na avaliação do CME Group, os preços começaram a escorregar quando a indicação de Kevin Warsh para comandar o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, ganhou espaço na imprensa. Warsh é visto como perfil hawkish — mais inclinado a juros altos — e cético em relação a estímulos como o quantitative easing e os juros zero. Isso abalou posições que esperavam um Fed alinhado a cortes desejados pela Casa Branca.
Sob Warsh, o Fed encerrou o viés de afrouxamento em junho e elevou os juros em setembro, sinalizando chance de novas altas. Pela primeira vez desde 2022, os futuros de Fed Funds e de SOFR passaram a precificar múltiplas elevações nos próximos 12 a 24 meses. O Banco Central Europeu (BCE), o Banco do Japão (BoJ), o Reserve Bank of Australia (RBA), o Norges Bank e o Bank of Korea já estavam bem avançados nas altas quando o Fed agiu. Juros curtos mais elevados aumentam o atrativo de moedas fiduciárias frente a ativos que não pagam juros, como o ouro.
Quatro forças de demanda, segundo o CME Group, ajudam a explicar por que a correção não foi ainda maior: déficits orçamentários grandes, que alimentam a inflação e abalam a confiança nos títulos; inflação acima da meta na maior parte dos países, com a China como exceção; a guerra no Oriente Médio, que pode empurrar déficits e inflação para cima; e a compra de ouro pelos bancos centrais, compradores líquidos desde 2008 após décadas de vendas líquidas.
O Congressional Budget Office estima déficit americano de 6,6% do PIB no exercício que termina em setembro de 2027 — sem contar gastos extras para repor munições do Pentágono após sete meses de combates intermitentes no Oriente Médio. O desemprego nos EUA está em 4,2%. O custo de servir a dívida federal saltou de 1,2% para 3,4% do PIB. Fora da China, quase todos os governos viram o serviço da dívida subir; o CME Group cita déficits de 8,5% do PIB no Brasil e na China, e de 4% a 6% na França, no Japão e no Reino Unido.
Quando o ouro passou de US$ 5 mil a onça, os bancos centrais podem ter freado as compras; perto de US$ 4.200, o nível pode reacender o interesse oficial. Eles compram quase só ouro, e quase nunca prata, platina ou paládio em volume relevante — o que, junto ao uso industrial desses metais, ajuda a explicar por que o ouro corrigiu menos.
Impacto na prática
Na vida cotidiana, juros mais altos e metais em queda podem afetar, em tese, quem guarda valor em ouro físico ou em fundos ligados a commodities: o poder de compra dessas posições já encolheu desde o pico de janeiro, embora ainda esteja bem acima do início de 2025. A inflação acima da meta fora da China sugere que o custo de vida segue sob pressão em várias economias, o que, em hipótese, reforça o argumento de proteção via metais — mesmo sob aperto monetário.
Em um país com déficit elevado, como o Brasil citado pelo CME Group com rombo de 8,5% do PIB, a análise sugere que o quadro fiscal global segue inflacionário e sensível a juros. Isso não implica um desfecho nos preços locais; indica, em hipótese, que o ouro pode continuar a ser lido como termômetro de risco fiscal e geopolítico, enquanto o aperto monetário pressiona o lado oposto.
Se o aperto não dominar a inflação, ou se novos choques de oferta ligados a conflitos ampliarem déficits e disrupções de cadeia, os metais preciosos podem, na linha do CME Group, recuperar terreno relativo — sobretudo frente a ações em períodos de instabilidade. Por ora, o cenário permanece aberto: juros curtos empurram para baixo; déficits, inflação e geopolítica puxam na outra direção.
Fontes: GN economy 1d
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