Morgan Stanley vê mais queda nas ações chinesas antes do fundo

Banco projeta nova desvalorização offshore de 10% a 15% e derating no continente, sob macro fraca e consumo lento.
Ilustração: Rafael Minguet Delgado (Pexels)
As ações chinesas ainda não teriam encontrado o piso de valuations, segundo o Morgan Stanley. Em nota citada pela Bloomberg nesta segunda-feira (26), analistas incluindo Laura Wang estimam que o papel offshore pode cair outros 10% a 15% antes de se aproximar do nível histórico de cerca de oito vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses.
No continente, a casa vê derating semelhante, com múltiplos indo a cerca de 10 a 11 vezes o lucro à frente. O pano de fundo, na leitura do banco, é a combinação de impulso macroeconômico fraco e consumo ainda sem tração — fatores que seguem pressionando o sentimento.
O que aconteceu
A mensagem central do Morgan Stanley é de continuidade da pressão, não de virada imediata. As ações chinesas estariam sujeitas a novas perdas antes que as valuations atinjam o fundo, na avaliação da casa. O recuo adicional projetado para o mercado offshore — de 10% a 15% — aponta para um ajuste que só se estabilizaria perto de oito vezes o lucro esperado em 12 meses, patamar descrito como histórico na análise.
Para as ações listadas no continente, o cenário desenhado é de compressão de múltiplos na mesma direção, com referência em torno de 10 a 11 vezes o lucro à frente. A Bloomberg destaca que o momentum macro e o de consumo seguem pesando sobre o humor dos investidores, o que, na lógica do relatório, impede um alívio rápido nas cotações.
Em linha com esse clima de cautela, o South China Morning Post reporta que o mercado acionário chinês, já em viés baixista, enfrenta pressão adicional por conta de uma perspectiva fraca de crescimento dos lucros. Segundo a publicação, os resultados corporativos passaram a ser outro freio: setores que vão de bens de consumo a imóveis e energia verde sofreriam com demanda fraca ou excesso de capacidade.
A corretora Shenwan Hongyuan, com sede em Xangai, apontou — conforme o SCMP — que o crescimento do lucro nos primeiros nove meses das companhias listadas no continente desacelerou em relação ao ritmo do primeiro semestre. A estimativa se apoiou em dados oficiais de lucros industriais, que a casa considera historicamente correlacionados aos resultados das empresas listadas. O National Bureau of Statistics registrou alta de 15,7% nos lucros das empresas industriais chinesas nos primeiros oito meses do ano, frente a 18,7% no primeiro semestre — desaceleração que reforça o tom cauteloso em torno dos balanços.
Os dois relatos não se contradizem nos números de valuation, que vêm exclusivamente do Morgan Stanley via Bloomberg. O SCMP aprofunda o lado micro: se o lucro cresce mais devagar e há setores sob estresse, o espaço para reavaliação positiva das ações fica mais estreito no curto prazo.
O que isso pode mudar
Se a tese do Morgan Stanley se confirmar, investidores em papéis offshore chineses podem ter de precificar um intervalo adicional de queda antes de qualquer estabilização nas valuations. Isso tenderia a alongar o horizonte de “compra na fraqueza” e a exigir disciplina maior com timing e com múltiplos, em vez de apostas precipitadas em fundo de mercado.
No continente, um derating para a faixa de 10 a 11 vezes o lucro à frente poderia alterar a comparação relativa com outros mercados emergentes e com o próprio histórico local. Gestores que usam valuations como âncora teriam, em tese, um ponto de referência mais claro — mas só depois de um ajuste que a casa ainda vê pela frente.
A pressão de lucros descrita pelo SCMP sugere, por outro lado, que o fundo de múltiplos pode coincidir com um ambiente ainda hostil de resultados. Nessa hipótese, a recuperação das cotações não viria apenas de valuations “baratas”, e sim de alguma melhora perceptível no consumo e na demanda setorial — algo que, pelo diagnóstico macro do Morgan Stanley, ainda não está no centro do cenário.
Para o fluxo internacional, a combinação de mais downside potencial e crescimento de lucro em desaceleração pode manter a China sob sobreatenção defensiva: menor alocação tática, seletividade setorial e expectativa de que o sentimento só mude quando o impulso macro e o consumo deixarem de pesar com a mesma intensidade. Até lá, o mercado parece calibrado para cautela, não para euforia.
Fontes: Bloomberg Markets · SCMP Business
Leia mais em: www.mundodosnegocio.com.br