Milionários ‘de toda parte’ mostram motor oculto da riqueza americana

Economistas apontam cerca de 3 milhões de donos de negócios privados com patrimônio médio perto de US$ 25 milhões, longe do holofote da tech e de Wall Street.
Foto: Jonathan Borba (Pexels)
Os americanos mais ricos não são só fundadores de tecnologia, celebridades ou titãs de Wall Street. Em texto publicado nesta sexta-feira (23) na Fast Company, os economistas Owen Zidar e Eric Zwick descrevem um grupo que chamam de “milionários de toda parte” — donos de negócios privados comuns, de concessionárias a empresas de portas de garagem, que acumulam fortunas longe dos holofotes.
Os autores, de Princeton e da University of Chicago Booth School of Business, resumem cinco ideias-chave do livro The Everywhere Millionaire: Who Is Really Rich in America and How They Got There, resultado de mais de uma década analisando dados fiscais anonimizados para mapear a forma real da riqueza nos Estados Unidos.
O que aconteceu
Segundo o recorte da Fast Company, cerca de 3 milhões de americanos encaixam-se nessa categoria. Eles teriam construído fortunas substanciais com média em torno de US$ 25 milhões ao deter empresas privadas. Em conjunto, detêm mais de 13 vezes a riqueza do Forbes 400. Para cada CEO de companhia aberta do qual se ouve falar, haveria mil donos de negócio com patrimônio de ao menos US$ 25 milhões operando em quase total obscuridade.
O exemplo de abertura é concreto. Em novembro de 2023, Bob e Paula Brockway, de Coral Gables, na Flórida, promoveram o que foi chamado de “casamento do século” da filha Madelaine: convidados em jato particular, jantar de ensaio na Ópera de Paris, fogos na Torre Eiffel, jantar no Palácio de Versalhes e show particular de Adam Levine, do Maroon 5. A conta: US$ 60 milhões. A intuição popular apontaria para tecnologia ou Wall Street; na prática, eram concessionários de automóveis na Flórida.
A tese central, na leitura dos autores, é que o imaginário da elite americana — nomes como Jamie Dimon, Taylor Swift, os Rockefellers ou Elon Musk — cobre apenas uma fatia pequena de quem de fato é rico. A “máquina oculta” estaria na propriedade de negócios privados ordinários, espalhada pelo território, e não só nas capas de revistas ou no Vale do Silício.
O que isso pode mudar
Se a fotografia dos “milionários de toda parte” se firmar no debate público, o olhar sobre desigualdade e mobilidade social nos EUA pode se deslocar do glamour midiático para a estrutura de propriedade de empresas fechadas. Em hipótese, políticas de crédito, tributação de negócios familiares e regras de sucessão ganhariam peso relativo diante de narrativas centradas só em big tech e finanças.
Para investidores e analistas, o quadro sugere — com cautela — que a riqueza americana continua fortemente ancorada em ativos ilíquidos e locais, não apenas em ações listadas. Isso poderia ajudar a explicar por que choques em bolsas de tecnologia não capturam sozinhos o patrimônio das famílias de alto patrimônio. Ainda assim, o texto da Fast Company é um “book bite” com insights selecionados; números e casos além dos citados acima não devem ser extrapolados sem o livro completo ou novas divulgações dos autores.
No curto prazo, o efeito mais imediato tende a ser cultural e analítico: rever o estereótipo do rico americano e reconhecer, com base na pesquisa de Zidar e Zwick, um motor de acumulação que opera fora do radar — concessionárias, prestadores locais e outros negócios “invisíveis” que, somados, rivalizam com a elite mais famosa do país.
Fontes: Fast Company
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