Movimento MAHA de Kennedy mostra rachadura sob Trump

A saída de Calley Means e derrotas em pesticidas e vacinas tensionam a aliança entre Robert F. Kennedy Jr. e Donald Trump, com democratas e JD Vance de olho no mesmo eleitorado.
Foto: Charles Criscuolo (Pexels)
A aliança entre o presidente Donald Trump e o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. ajudou a mobilizar eleitores do Make America Healthy Again (MAHA), mas o movimento que a Casa Branca cultivou há anos começa a mostrar fissuras. Nesta quinta-feira, 22 de outubro de 2026, a saída de Calley Means, um dos principais confidents de Kennedy, deixa defensores do MAHA sem o que muitos consideravam seu campeão mais vocal dentro do governo.
Derrotas em pesticidas, dificuldades para transformar iniciativas de segurança alimentar em regras duráveis e obstáculos jurídicos na tentativa de reformular a política federal de vacinas alimentam a percepção de que a agenda prometida perdeu tração em Washington.
O que aconteceu
Segundo o relato do correspondente de saúde David Lim, no Semafor, Means confirmou a saída em mensagem de texto na qual descreveu Washington como uma “burocracia corrupta de DC que faz tudo o possível para proteger o status quo”, em linha com notícia antecipada pelo The Wall Street Journal. Para ativistas do MAHA, a partida remove uma voz interna considerada central na disputa com o aparato federal.
Um ex-funcionário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS, na sigla em inglês) que trabalhou em temas do MAHA foi direto: a administração “passou a perna no MAHA inúmeras vezes”. Na avaliação dessa fonte, os apoiadores do movimento voltaram a se comportar de forma mais independente e tenderiam a votar não por partido, mas por quem julgarem defender melhor suas prioridades.
Há atritos concretos. Ativistas vocalizaram críticas quando o governo Trump avançou uma diretriz sobre um herbicida que, segundo eles, seria excessivamente favorável à indústria. Outros cobram de Kennedy mais esforço para codificar restrições a corantes alimentares, de modo que as medidas sobrevivam além do mandato atual. Uma porta-voz do HHS destacou “vitórias históricas do MAHA”, mas, na prática, a política de saúde volta a parecer disputa em aberto.
O lobista TJ Petrizzo resume o elo político: o MAHA está entrelaçado ao Make America Great Again (MAGA). Ainda assim, liberais também miram o mesmo eleitorado, ainda que sem cortejar o público antivacina. Entre os democratas citados estão a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, e Abdul El-Sayed, aspirante ao Senado por Michigan, que buscam eleitores preocupados com a influência corporativa sobre comida e pesticidas.
No campo republicano, o vice-presidente JD Vance, conhecido por admirar a dieta de chucrute de Kennedy, já sinaliza interesse próprio nesse bloco após aparecer em eventos como a Cúpula do MAHA. Enquanto isso, Kennedy circula pelo Texas, New Hampshire e Flórida enfatizando trabalho do governo em doença renal crônica, saúde rural e nutrição — temas considerados seguros para as midterms, porém distantes da agenda MAHA que ele prometeu entregar na capital.
O que isso pode mudar
Se a rachadura se aprofundar, o MAHA pode deixar de funcionar como apêndice automático do trumpismo e virar um eleitorado flutuante, disputado por democratas focados em comida e pesticidas, por Vance e, eventualmente, por uma nova candidatura de Kennedy à Presidência. A hipótese em aberto, segundo o próprio enquadramento do Semafor, é se o secretário conseguiria reconsolidar esses votos caso lance outra corrida à Casa Branca.
Na reta das midterms, a ênfase em mensagens “seguras” pode conter danos de curto prazo, mas dificilmente apaga a cobrança por regulamentações duráveis e por vitórias simbólicas em pesticidas e corantes. Sem Means no núcleo do governo e com a política de saúde de novo em disputa, o risco para Trump e Kennedy é ver o MAHA votar menos por lealdade de chapa e mais por quem parecer, na prática, o principal advogado da causa.
Fontes: Semafor
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