Pesquisadora vê maldição do incumbente no equilíbrio entre Lula e Flávio Bolsonaro

Cila Schumann, do Instituto Ideia, liga polarização, custo de vida e desgaste de quem governa ao segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Ilustração: Rô Acunha (Pexels)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega à reta final do segundo turno sob o peso de um fenômeno que, segundo a pesquisadora Cila Schumann, do Instituto Ideia, tem se repetido em diferentes países: a dificuldade de quem já governa em converter a vantagem do cargo em apoio suficiente para conquistar um novo mandato. Em entrevista ao programa Mapa de Risco, do InfoMoney, nesta sexta-feira (23), ela descreveu o quadro como “maldição do incumbente” — o incumbente é quem já ocupa o poder.
A leitura ajuda a enquadrar a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), marcada, conforme a pesquisadora, pelo equilíbrio nas pesquisas e pela resistência de parte do eleitorado à continuidade do atual governo. Polarização, expectativas elevadas e insatisfação com o custo de vida entram na explicação do desgaste.
Mesmo quando apresentam resultados positivos em determinadas áreas, governos encontram dificuldades para convencer a população de que as condições de vida melhoraram, afirmou Schumann no contexto da análise publicada em 24 de outubro de 2026.
O que aconteceu
Na conversa ao Mapa de Risco, Schumann classificou o pleito desde o início como “uma eleição de oposição”, atravessada pela maldição do incumbente — “uma maldição que tem viajado por muitos países, por muitas eleições ultimamente”, disse. O principal obstáculo atribuído a Lula, na sua avaliação, foi não conseguir ampliar de maneira significativa a aprovação durante a campanha.
“Antigamente a gente sempre falava: o incumbente, como ele tem a caneta, como ele tem uma série de vantagens, vai crescendo a sua aprovação durante a campanha. Isso não aconteceu com o presidente Lula”, afirmou a pesquisadora.
Tradicionalmente, presidentes que disputam a reeleição contam com exposição do cargo, realizações de governo, anúncios de políticas públicas e o argumento da experiência administrativa. O problema, segundo Cila, é que essas vantagens perderam parte da capacidade de mobilização em sociedades profundamente divididas.
Quando a vitória ocorre por margem estreita, o mandato começa com parcela expressiva da população contrária à eleição do presidente. A dificuldade de conquistar esses eleitores ao longo de quatro anos limita o crescimento da base política. “Como os presidentes têm sido eleitos por uma margem muito pequena de votos, eles têm dificuldade, durante o mandato, de falar com aquela metade que não aceita que ele seja o presidente. Então a gente não consegue mais voltar da polarização”, explicou.
Schumann avalia que Lula enfrentou esse problema ao longo do terceiro mandato, sem conseguir atrair parcela relevante dos eleitores identificados com Jair Bolsonaro. Na leitura dela, a estabilidade da desaprovação ao governo durante a campanha tornou mais difícil transformar medidas administrativas e anúncios de benefícios em novos votos.
Impacto na prática
O custo de vida e a percepção de melhora — ou a falta dela — aparecem, na análise, como motores do desgaste de quem governa. Em tese, quando famílias sentem que o orçamento doméstico não acompanha as expectativas criadas no início do mandato, o saldo positivo em áreas pontuais pode não bastar para alterar a avaliação do governo.
Em países com disputa apertada e forte divisão política, o fenômeno descrito por Schumann pode reforçar eleições “de oposição”, nas quais a continuidade deixa de ser o caminho mais óbvio para boa parte do eleitorado. No caso brasileiro em curso, o equilíbrio nas pesquisas e a resistência à reeleição sugerem, segundo a própria pesquisadora, que a vantagem institucional do cargo não se traduziu em expansão clara de apoio na campanha.
Para mercados e para a vida cotidiana, a incerteza associada a um segundo turno equilibrado pode, em hipótese, manter atenção elevada sobre o rumo da política econômica após o pleito — sem que isso, por si só, determine preços, juros ou renda. O que a fonte aponta é o mecanismo político do desgaste; o desdobramento econômico concreto depende de escolhas e resultados ainda em aberto.
Se a “maldição do incumbente” segue viajando por eleições em vários países, como Schumann observa, o caso brasileiro pode ilustrar um padrão mais amplo: polarização e insatisfação com o custo de vida enfraquecendo a reeleição mesmo quando o governo busca capitalizar realizações — hipótese que a urna e o tempo dirão se se confirma nesta disputa.
Fontes: GN economy 1d
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