PIB argentino cresce e inflação desacelera, mas pobreza e desemprego seguem em alta

Indicadores do Indec mostram expansão puxada por exportações e inflação mensal de 1,7% em agosto, enquanto pobreza atinge 32,3% e empregadores registrados caem 6,3%.
Foto: Alesia Kozik (Pexels)
A economia da Argentina entrou no primeiro debate presidencial do segundo turno no Brasil. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) questionou Flávio Bolsonaro (PL) sobre a proximidade com Javier Milei e se reproduziria no país a política econômica argentina.
A discussão seguiu menção de Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio, ao governo de Milei como inspiração para cortes de impostos e burocracia. Os indicadores oficiais, porém, mostram crescimento do PIB e inflação mais baixa ao lado de mais pobreza, mais desemprego e fraqueza do consumo, da indústria e dos investimentos — com exportações puxando a atividade e o mercado interno em retração, segundo o Indec.
O que aconteceu
O PIB argentino cresceu 2,3% no primeiro trimestre de 2026 na comparação com o mesmo período de 2025 e avançou 2% no segundo trimestre, também na base anual, segundo o Indec. Entre abril e junho, porém, a atividade recuou 0,6% em relação aos três meses anteriores, já descontada a sazonalidade. No mesmo intervalo, o consumo privado caiu 2,4%, o consumo público diminuiu 2,3% e os investimentos recuaram 0,8%. Na comparação anual, a formação bruta de capital fixo — indicador dos investimentos na economia — registrou queda de 11,1%.
No segundo trimestre, atividades exportadoras lideraram: pesca (+44,7%), mineração e extração em pedreiras (+16,4%) e agropecuária (+6,9%). As exportações de bens e serviços subiram 13,7%, enquanto as importações caíram 8,6%. A indústria manufatureira, em contrapartida, recuou 2,1% no trimestre; no primeiro, a indústria de transformação havia caído 1,7% e o varejo, 0,3%.
A inflação mensal desacelerou para 1,7% em agosto de 2026. O acumulado em 12 meses, que chegou a quase 290%, caiu para cerca de 30% nos dois primeiros anos de Milei, em meio a ajuste fiscal, cortes de gastos e retirada de subsídios.
A pobreza voltou a subir: de 28,2% no segundo semestre de 2025 para 32,3% no primeiro semestre de 2026, primeira alta em dois anos, em levantamento do Indec que cobre 31 aglomerados urbanos e indica 9,7 milhões de pessoas abaixo da linha. A extrema pobreza passou de 6,3% (1,9 milhão) para 7,5% (2,2 milhões). O desemprego atingiu 7,9% no segundo trimestre de 2026, ante 7,6% no mesmo período de 2025 — cerca de 1,8 milhão de desempregados nos aglomerados acompanhados. Quase metade da população economicamente ativa trabalha na informalidade, sem vínculo formal.
A SRT registrou queda de empregadores com funcionários registrados de 512.357 (nov/2023) para 480.067 (jul/2026), −6,3% no 18º mês seguido. O CEPA indica importações de bens de consumo +34,7% no 1º semestre de 2026 versus 2023 e produção industrial −12%; entidades empresariais citam custos, dívidas das famílias e consumo fraco.
Impacto na prática
Para milhões de argentinos, a desaceleração da inflação pode, em tese, aliviar a corrida diária dos preços após anos de índices extremos, mas a nova alta da pobreza e da indigência sugere que a estabilização ainda não se traduziu de forma uniforme em renda e acesso a alimentos. Famílias com renda limitada podem continuar expostas a um mercado de trabalho em que o desemprego sobe e a informalidade permanece elevada.
A recuperação desigual pode pressionar emprego formal, sobretudo em pequenas e médias empresas. Importações mais altas podem ampliar oferta de consumo, mas também competir com a indústria local, onde energia e crédito já pesam.
No debate brasileiro, o contraste entre inflação e PIB, de um lado, e pobreza e indústria fraca, de outro, pode alimentar disputas sobre replicabilidade do modelo — sem que os números argentinos prevejam, por si, efeito automático em outros países.
Se o ritmo trimestral negativo do PIB e a queda do consumo se prolongarem, o governo Milei pode enfrentar maior dificuldade para sustentar ao mesmo tempo metas fiscais austeras e melhora social — especialmente com empregadores formais em sequência de retração e a indústria ainda em declínio no primeiro semestre.
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