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Relevo de 11 mil anos na Turquia pode ser a mais antiga narrativa em pedra

Relevo de 11 mil anos na Turquia pode ser a mais antiga narrativa em pedra

Descobertas em Sayburç revelam relevo narrativo de cerca de 11 mil anos, sepultamentos domésticos e pilares em T de comunidades neolíticas.

Foto: Emilio Sánchez Hernández (Pexels)

Uma escultura de aproximadamente 11 mil anos, encontrada no sítio arqueológico de Sayburç, no sudeste da Turquia, pode ser a mais antiga representação conhecida de uma cena narrativa esculpida em pedra. O relevo reúne figuras humanas e animais em uma composição cujo significado ainda não foi decifrado, segundo a Exame, com base em informações divulgadas pela CNN.

As descobertas integram um assentamento do período neolítico com cerca de 70 estruturas, entre habitações e edifícios comunitários. As escavações começaram em 2021, depois que funcionários do Museu de Şanlıurfa constataram que pedras em formato de T usadas por moradores da região eram pilares pré-históricos. O material ajuda a investigar como algumas das primeiras comunidades sedentárias viviam, enterravam seus mortos e transmitiam histórias antes da escrita.

O que aconteceu

O relevo foi encontrado em um banco de pedra de cerca de 3,7 metros de comprimento, no interior de um edifício comunitário circular. A composição apresenta cinco figuras: dois homens, dois leopardos e um touro. Em uma das extremidades, o touro aparece de perfil, com os chifres voltados para uma figura masculina agachada. O homem tem seis dedos em uma das mãos e segura um objeto na outra. A segunda figura humana surge entre dois leopardos, com dentes expostos e caudas curvadas.

Em estudo publicado em 2022 na revista científica Antiquity, a arqueóloga Eylem Özdoğan, da Universidade de Istambul, descreveu a composição como a mais antiga representação conhecida de uma cena narrativa esculpida em pedra. Diferentemente de outras imagens pré-históricas da região, as figuras de Sayburç parecem formar uma sequência interligada.

Pesquisadores propõem hipóteses distintas: encontros entre humanos e animais perigosos; rituais de passagem em que o confronto com animais simbolizaria uma etapa da vida; e leituras ligadas à fertilidade e à virilidade, sugeridas por representações fálicas em outros sítios de Taş Tepeler. Não há evidências suficientes para fixar o significado original. À CNN, Özdoğan afirmou que interpretações diversas podem ajudar a compreender a obra, mas que provavelmente não será possível recuperar a história exata contada pelos antigos habitantes.

Para a pesquisadora, a relevância dos relevos vai além de decifrar um enredo. Como esses grupos não usavam a escrita, normas e relatos circulavam oralmente, e as imagens poderiam auxiliar a preservar a memória coletiva. Özdoğan destaca que a arte pública aparece de maneira mais visível em Sayburç e que os relevos poderiam expressar valores compartilhados e reforçar a coesão de comunidades em transição para um modo de vida mais sedentário.

As escavações também trouxeram indícios funerários. Restos humanos foram encontrados dentro de residências habitadas, às vezes sob os pisos, em arranjos cuidadosos, o que sugere, para os pesquisadores, que os mortos poderiam continuar sendo considerados parte da família. Há ainda uma pequena figura esculpida que parece representar uma pessoa morta com a boca fechada, selada ou costurada. Ossos humanos misturados a restos de animais, associados a aves necrófagas em outros sítios de Taş Tepeler, levantaram hipóteses sobre excarnação e sobre uma possível prática de “sepultamento celestial” — não confirmada para Sayburç.

Outro elemento central são os pilares de pedra em formato de T. Alguns exibem braços e cintos esculpidos e são interpretados como estruturas antropomórficas. Em um edifício no centro do assentamento, arqueólogos identificaram um pilar com rosto humano na base, diante de um grande nicho e próximo a pilares com representações de um leopardo e de um porco. Segundo Özdoğan, a disposição parece intencional, embora o significado permaneça desconhecido. Cerca de 70 estruturas haviam sido identificadas, além de bacias de pedra e instrumentos de moagem; os vestígios indicam processamento de grãos e levantam a possibilidade de produção de cerveja. A equipe de Özdoğan trabalha para transformar Sayburç em museu a céu aberto, visando preservar o assentamento e permitir a visitação pública.

Impacto na prática

Os achados podem ampliar o entendimento público sobre como comunidades neolíticas organizavam moradia, morte e memória coletiva. Em hipótese, a valorização de sítios como Sayburç e a proposta de museu a céu aberto podem reforçar, na Turquia, o interesse por conservação, pesquisa e visitação responsável a patrimônios do início do sedentarismo — sem efeito automático garantido sobre turismo ou educação em outros países.

Ao reunir narrativa visual, sepultamentos domésticos e pilares antropomórficos, o caso pode oferecer referência para debates sobre transmissão cultural antes da escrita. Em tese, museus e universidades podem usar Sayburç como exemplo de hipóteses científicas que convivem com lacunas — sobretudo quando, como alertou Özdoğan, a história exata representada nas pedras provavelmente não será recuperada por completo.

Se as escavações e o projeto de museu a céu aberto avançarem conforme descrito pela equipe, o sítio pode continuar a funcionar como laboratório aberto sobre a Idade da Pedra no sudeste da Turquia — com novas leituras possíveis, mas sem garantia de que o enigma da narrativa de 11 mil anos seja resolvido.

Fontes: Exame – Esculturas, sepultamentos e pilares em Sayburç

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