UC Berkeley abre prédio de IA feito para interação humana e campos cruzados

O Bakar Gateway, de 367 mil pés quadrados, sediará o college de computação e dados da UC Berkeley com desenho poroso de Weiss/Manfredi e Gensler.
Ilustração: Yaroslav Shuraev (Pexels)
A Universidade da Califórnia em Berkeley inaugurou o Barbara and Gerson Bakar Gateway, sede do novo College of Computing, Data Science, and Society. O edifício de 367 mil pés quadrados — cerca de 34 mil metros quadrados — foi projetado pelo escritório Weiss/Manfredi, em parceria com a Gensler, com a premissa de que a pesquisa em inteligência artificial e áreas afins avance pelo encontro entre pessoas, e não pelo isolamento em salas fechadas.
Segundo reportagem da Fast Company, o projeto de vidro curvo e colunas esbeltas concentra auditórios, laboratórios, escritórios e áreas comuns para estudantes e professores de programação, robótica e inteligência artificial, sob a direção da decana inaugural Jennifer Chayes.
O que aconteceu
Chayes chegou a Berkeley em 2020 para erguer a primeira faculdade nova da instituição em mais de meio século, depois de 23 anos na Microsoft como technical fellow e diretora de laboratório. Ela queria um prédio à altura da missão do college: reunir sob o mesmo teto cursos e pesquisas cujas fronteiras acadêmicas se tornaram cada vez mais difusas.
Na prática, isso se traduziu em um desenho “poroso”, nas palavras da própria decana — menos paredes rígidas entre disciplinas e mais circulação entre campos. A Fast Company descreve um volume interligado em que tecnologias e saberes distintos devem, por desenho, se cruzar. Há espaços de aula e de laboratório, mas o peso maior do programa arquitetônico foi deslocado para as áreas comuns.
Weiss/Manfredi, com Marion Weiss e Michael Manfredi no comando criativo, e a Gensler como parceira, aceitaram a pressão do cliente. Chayes conta ter escrito poesia e prosa sobre como esperava que o edifício fizesse as pessoas se sentirem — e ter rejeitado os quatro primeiros projetos. Longe de afastar o time, o atrito reforçou a ênfase atípica em praças internas e zonas de convivência, com menos metragem do que o usual para gabinetes privados e salas de aula tradicionais.
O discurso institucional acompanha a forma. Chayes diz que a porosidade do prédio espelha a porosidade disciplinar do college e a ambição de que os alunos saiam com um ethos de compaixão e um senso profundo de responsabilidade perante a sociedade. Em outras palavras, o campus trata a inteligência artificial não só como capacidade técnica, mas como prática social que exige contato humano contínuo.
O que isso pode mudar
Se o Bakar Gateway funcionar como anunciado, universidades e centros de pesquisa podem passar a medir sucesso também pela densidade de encontros fortuitos — e não apenas pela metragem de laboratórios isolados. O modelo sugere que a próxima geração de infraestrutura em ciência de dados e IA pode privilegiar átrios, corredores largos e espaços compartilhados como infraestrutura de inovação, e não como “resto” do programa.
Há, porém, cautela. Um edifício poroso não garante, por si só, colaboração interdisciplinar; depende de rotinas acadêmicas, incentivos de publicação e cultura de gestão. Ainda assim, o gesto de Berkeley — primeira faculdade nova em décadas, liderança com trajetória em big tech e arquitetura pensada para atrito produtivo — pode influenciar briefings de campi em expansão e pressionar projetos que ainda separam departamentos em silos físicos.
No curto prazo, o marco mais concreto é simbólico e operacional ao mesmo tempo: um endereço único para programação, robótica e inteligência artificial, desenhado para que estudantes e docentes se vejam. Se a hipótese da Fast Company e da própria decana se confirmar no uso diário, o Bakar Gateway pode virar referência de como o espaço físico ainda molda o ritmo da pesquisa em tecnologias que, ironicamente, prometem um mundo cada vez mais remoto.
Fontes: Fast Company
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