Vantagem de ser móvel e urbano pode estar cedendo lugar ao enraizamento

Ensaio da Fast Company revisita a divisão Anywheres e Somewheres de David Goodhart e diz que custos, solidão e inteligência artificial podem inverter o prestígio da mobilidade.
Foto: 1ndex (Pexels)
Em 2017, o jornalista britânico David Goodhart propôs, em The Road to Somewhere, uma leitura que atravessou o debate político no Ocidente. Dividiu as sociedades em dois grandes grupos: os Anywheres, cerca de um quarto da população, formados, urbanos e móveis, cuja identidade repousa em diplomas e carreiras; e os Somewheres, mais numerosos, menos escolarizados e mais enraizados em um lugar.
Um ensaio publicado nesta quarta-feira (21) pela Fast Company argumenta que a vantagem relativa de ser móvel pode estar se invertendo. Custos altos, redes frágeis e a pressão da inteligência artificial sobre o trabalho do conhecimento tornariam esse estilo de vida menos sustentável para profissionais comuns — enquanto vínculos locais recuperariam peso econômico e social.
O que aconteceu
Goodhart descreveu os Anywheres como confortáveis com mudança e os Somewheres como mais ligados a território e pertencimento — contraste associado a reações como o Brexit e o avanço do populismo. O texto da Fast Company revisita esse mapa e diz que, nas grandes cidades globais, o custo de viver como móvel subiu mais rápido do que a renda.
Quem chega sempre como novo no mercado imobiliário paga o preço mais alto. A pandemia de covid-19, a guerra na Ucrânia, a inflação e o conflito com o Irã encareceram moradia, transporte, saúde, escolas internacionais, restaurantes e viagens. Segundo o ensaio, só os muito ricos ainda sustentam esse modo de vida sem atrito. Já quem está ancorado há anos conta com redes de apoio, contratos antigos e conhecimento local para gastar menos.
O ensaio narra a trajetória de quem o assina: a mudança de Paris a Londres em meados da década de 2010 parecia gloriosa; depois do Brexit, visto, fronteiras e custos tornaram a mesma rota bem mais difícil. Uma passagem por Munique na pandemia reforçou a lição — cidade cara e inflação energética que afastou o “bom viver” da classe média móvel. A covid também expôs a solidão de trabalhadores remotos e nômades digitais: redes dispersas funcionam bem na prosperidade e falham na crise.
O texto rejeita a caricatura rural homogênea e ressentida. No campo francês haveria as mesmas divisões de classe das cidades; agricultores representariam menos de 10% da força de trabalho rural. Tampouco os Anywheres formariam uma classe única: a maior parte de quem cruza fronteiras não é a “classe do laptop”. Em Londres, antes do Brexit, a maioria dos franceses expatriados trabalhava em restaurantes, não em finanças.
Dados do World Migration Report 2026 da Organização Internacional para as Migrações apontam cerca de 304 milhões de migrantes internacionais em meados de 2024 — 3,7% da população mundial. Em 2022, trabalhadores migrantes eram quase 60% desse total; ao fim de 2025, somavam-se 41,6 milhões de refugiados e 9 milhões de solicitantes de asilo. Remessas poderiam chegar a US$ 905 bilhões, dos quais US$ 685 bilhões a países de renda baixa e média; só a Índia teria recebido mais de US$ 137 bilhões em 2024. A conclusão: o privilégio não é a mobilidade em si, e sim o direito de se mover com segurança e legalidade.
O que isso pode mudar
Se a leitura estiver correta, o prestígio da mobilidade urbana pode deixar de garantir vantagem material para a classe média profissional. A inteligência artificial, ao pressionar empregos de conhecimento, poderia reforçar o valor de redes locais e da ideia de hereness que Naomi Klein e Astra Taylor recuperam do Bund trabalhista judaico: compromisso com um lugar e com quem nele vive, de qualquer origem.
O exemplo citado é a campanha de Zohran Mamdani à prefeitura de Nova York, centrada em bairros, metrô, trabalhadores imigrantes, aluguéis mais baixos e creche universal. Nova York costumava ser vista como cidade Anywhere por excelência; o ensaio sugere que é possível ser cosmopolita e enraizado ao mesmo tempo — e que a oposição rígida entre os dois polos pode deixar de organizar bem trabalho, moradia e política urbana.
Fontes: Fast Company
Fontes: Fast Company
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