Vice do BC da Irlanda liga confiança à segurança do futuro dos pagamentos

Vice do BC da Irlanda liga confiança à segurança do futuro dos pagamentos

Mary-Elizabeth McMunn alerta para riscos da corrida digital, defende salvaguarda e resiliência e cita alta de 27% nas fraudes na Irlanda em 2025.

Foto: https://kaboompics.com/ (Pexels)

A vice-governadora do Banco Central da Irlanda, Mary-Elizabeth McMunn, defendeu que a confiança continua sendo a base absoluta dos sistemas de pagamento, mesmo com a aceleração digital, a tokenização e o comércio mediado por agentes. O discurso, feito em 14 de outubro de 2026 na conferência da Electronic Money Association em Dublin e publicado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), encerrou o encontro de 25 anos da associação.

McMunn afirmou que pagamentos são o “sangue” da economia e que a inovação só entrega valor se preservar segurança, confiabilidade e proteção contra fraudes — o que pesquisas do próprio banco central apontam como prioridade das famílias.

O que aconteceu

Na fala “Transitioning through trust – securing the future of payments”, ela descreveu a transição do papel-moeda ao dinheiro programável e a um cenário em que o comércio “agentic” pode reduzir a presença humana na cadeia. Apesar das mudanças de meio, nada funciona sem confiança no dinheiro e na infraestrutura que o sustenta.

Destacou o avanço da finança digital, da tecnologia de registro distribuído (DLT, do inglês distributed ledger technology), da tokenização e de modelos de fronteira de inteligência artificial (IA). Apontou dois riscos ligados à velocidade da mudança. O primeiro é que o dinheiro público não acompanhe a transformação e deixe de ser âncora; por isso a Europa moderniza a moeda do banco central, com o Pontes — que liga os TARGET Services a serviços em DLT para liquidar operações atacadistas on-chain — e o euro digital, pensado como trilho varejista nativo europeu, sem abandonar o acesso ao numerário. O segundo é que empresas corram para “acompanhar” o mercado sem estratégia, gerando produtos pouco interoperáveis e mais fragmentação. Pediu foco em resultados para o cliente, não só nos meios tecnológicos.

No plano supervisório, citou a salvaguarda de fundos e a resiliência operacional. Alertou para falhas de controle em processos terceirizados e para a relevância do Regulamento de Resiliência Operacional Digital (DORA), que não deve ser só conformidade. A governança de tecnologia da informação e comunicação (TIC), disse, é papel do conselho, não apenas do departamento de TI. Sobre crime financeiro, informou que prestadores residentes na Irlanda registraram 179 milhões de euros em pagamentos fraudulentos em 2025, ante 140 milhões em 2024 — alta de 27%. Os fraudulentos em dinheiro eletrônico subiram 57,7%, para 40,42 milhões de euros. O banco concluiu revisão temática sobre controles e tratamento de vítimas; como “Trusted Flagger”, reportou 333 URLs fraudulentas nos nove meses até o fim de 2026, com 99% removidas.

No Innovation Hub houve 78 engajamentos no ano anterior (+10%). O sandbox de pagamentos aceitou oito projetos e um relatório sai em novembro; um terceiro sandbox deve ser lançado nos próximos meses.

O que isso pode mudar

Se a mensagem for absorvida pelo setor, a corrida por novos instrumentos pode ceder espaço a exigências mais duras de salvaguarda, interoperabilidade e resiliência. Firmas que investirem sem desenho claro de risco e recuperação podem enfrentar supervisão mais intensa e menor tolerância a falhas em terceirização.

A ênfase no euro digital, no Pontes e na tokenização sugere que a âncora do dinheiro do banco central pode ganhar peso nas liquidações digitais, reduzindo o risco de um ecossistema só de trilhos privados. O salto das fraudes e o uso da IA por criminosos e por defesas indicam que a confiança do público pode depender cada vez mais do bloqueio rápido de golpes, da recuperação de valores e do tratamento justo a consumidores vulneráveis — sem que a eficiência automatizada substitua o julgamento humano na resiliência.

Fontes: BIS Speeches — Transitioning through trust - securing the future of payments (Mary-Elizabeth McMunn)

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