CEO da Town diz que caixa vazia trava o uso cotidiano de IA

Jean-Denis Greze liga a baixa adoção de agentes ao chat em branco; a Town levantou US$ 108 mi com valuation de US$ 1 bi.
Ilustração: Yaroslav Shuraev (Pexels)
A inteligência artificial (IA) já move agentes capazes de agir em nome do usuário, mas a maior parte das pessoas comuns ainda não os usa no dia a dia. Em entrevista à Fast Company, Jean-Denis Greze, CEO da startup Town — chamado de “prefeito” da empresa —, atribui o atraso a um problema simples e teimoso: a caixa vazia do chat.
A Town, fundada em São Francisco no fim de 2024 por Greze e Tony Vincent, anunciou em 19 de outubro uma rodada Series B de US$ 108 milhões, coleiderada por Forerunner Ventures e Menlo Ventures, com valuation de US$ 1 bilhão. O alvo declarado são donos de pequenos negócios e empresas de médio porte que ainda buscam benefícios práticos da IA no cotidiano.
O que aconteceu
Greze chegou à Town depois de ser CTO da Plaid, onde a engenharia cresceu de cerca de 20 para 350 pessoas. Na conversa com a Fast Company, ele discute o “empty-box problem”, por que a palavra “assistente” seria inadequada e o ritmo acelerado da corrida da IA.
Perguntado se o ChatGPT ou o Claude já fariam quase tudo o que a Town promete, Greze admite que, em grande parte, sim. A diferença, segundo ele, está no uso real: a maioria não emprega essas ferramentas no que o mercado chama de trabalho agentic — ou seja, fazer coisas pelo usuário —, e as trata mais como substituto sofisticado de busca.
O maior obstáculo, afirma, é que as pessoas não sabem o que digitar na caixa de conversa. Colocar alguém diante de um campo em branco e pedir que escreva o que fazer — sobretudo quando as capacidades mudam o tempo todo — “não é onboarding”, diz o executivo. A crítica não é à potência dos modelos, e sim ao desenho da experiência que ainda exige do usuário um roteiro que poucos têm.
Nesse quadro, a aposta da Town é tornar a IA mais acessível e útil no fluxo de trabalho de quem opera fora das big techs. Em paralelo de contexto, a Quartz destaca, em manchete, que empresas de utilidade pública de cidades pequenas estão entre as mais vulneráveis a ciberataques ligados à IA — um lembrete de que a mesma onda tecnológica chega de forma desigual a organizações menores, seja como oportunidade de produtividade, seja como exposição a risco.
O que isso pode mudar
Se a leitura de Greze estiver correta, o gargalo da adoção pode deixar de ser apenas potência de modelo e passar a ser interface e hábito. Produtos que continuarem a depender de prompts livres poderiam seguir fortes em pesquisa e curiosidade, mas fracos em automação rotineira para quem não sabe formular o pedido.
Isso poderia favorecer assistentes que sugerem tarefas concretas a partir do contexto do negócio — e-mail, agenda, rotinas — em vez de esperar que o usuário invente o comando. Para pequenas e médias empresas, o ganho hipotético seria converter a IA de “buscador elegante” em ferramenta que executa, ainda que a mudança de comportamento, como o próprio ritmo da corrida sugere, tenda a ser gradual.
Ao mesmo tempo, o contraste com a vulnerabilidade sinalizada pela Quartz para utilidades menores ilustra um possível descompasso: enquanto startups disputam valuation bilionário para popularizar agentes, organizações com menos recursos podem absorver a IA sem o mesmo nível de defesa ou de capacitação. O resultado, se confirmado, seria um mercado em que a vantagem competitiva e o risco cibernético avançam juntos — e em velocidades diferentes.
Fontes: Fast Company · Quartz
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