Bolsa
← CapaEconomia

Datafolha mostra Lula recuperando jovens e pobres após choque de realidade

Datafolha mostra Lula recuperando jovens e pobres após choque de realidade

Coluna da Folha aponta saldo negativo da avaliação de Lula 3 no menor nível desde dezembro de 2024 e encolhimento da diferença para Flávio Bolsonaro.

Foto: Aukid phumsirichat (Pexels)

A avaliação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a melhorar na pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (22), segundo análise do colunista Vinicius Torres Freire na Folha. Desde dezembro de 2024, o chamado Lula 3 não registrava um saldo negativo tão estreito na comparação entre quem classifica o governo como “ruim ou péssimo” e quem o avalia como “ótimo ou bom”.

Esse saldo negativo caiu para três pontos, ainda um pouco pior do que o de Jair Bolsonaro à mesma altura da campanha de 2022, quando o então presidente tinha saldo negativo de um ponto, escreve Torres Freire. O empate nas intenções de voto, aponta o colunista, não seria o único dado relevante: a direita, desde 2018, tem aparecido com mais votos na urna do que nas pesquisas finais — “não é lei da natureza, mas tem acontecido”.

Entre o primeiro Datafolha após o primeiro turno, de 8 de outubro, e a pesquisa desta quinta, a diferença entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula encolheu 2,3 pontos percentuais. O movimento foi mais intenso entre homens (5,8 pontos), jovens de 16 a 24 anos (12,6 pontos), no Nordeste (8,6 pontos), no eleitorado com ensino médio (8,2 pontos), no interior — onde Lula ainda perde — (5 pontos) e entre quem ganha menos de dois salários mínimos (4,2 pontos). Torres Freire observa que os recortes ficam perto da margem de erro, mas “parece uma tendenciazinha”.

O que aconteceu

Na leitura do colunista, o petismo-lulismo ficou alheio à política e a temas populares por quase quatro anos. A avaliação do governo, ainda negativa, é a melhor desde dezembro de 2024. Só agora ela teria começado a melhorar de modo que pode vir a ter relevância eleitoral; o indicador havia estagnado desde meados de setembro. Avaliação ruim, diz o texto, é “pedra no caminho da reeleição”.

O estreitamento frente a Flávio Bolsonaro, a melhoria discreta da avaliação de Lula 3 e a recuperação de votos entre jovens e no Nordeste sugerem, segundo a coluna, que a campanha petista frenética após a derrota no primeiro turno deu algum resultado. Torres Freire descreve o desespero como “psicose eleitoral”.

Houve mobilização de lulistas-petistas e de alguns antibolsonaristas nas ruas, em sua maioria jovens. O governismo aderiu ao vale-tudo das redes com o “Exército de Lula”, conduzido pelo deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG). Lula 3, afirma a coluna, também aderiu ao vale-tudo para conquistar votos, “como o fizera Jair Bolsonaro antes de ir para o golpe”.

A cúpula petista, na interpretação de Torres Freire, descobriu que ainda há militância no partido e na esquerda — apesar de uma direção “envelhecida de modos e ideias”. Desde o início do governo, essas lideranças não teriam percebido quão minoritárias eram na política, teriam ignorado o centro e a dificuldade da conversa da esquerda em chegar ao povo comum, além das condições econômicas que mais afetam o “povo miúdo”: preços, inflação, dívidas e o mundo do trabalho. Também não teriam entendido o bolsonarismo e teriam ficado fora do mundo digital. O governo, escreve, foi dominado por conselheiros “na maior parte medíocres e daí para baixo”.

Havia a expectativa de que Flávio Bolsonaro seria “barbada” e de que o povo bateria palmas à volta de Lula 3. Teriam esquecido as ruas, as redes e o jargão de “partido de massas”. Quando acordou, o lulismo-petismo “redescobriu que existe política”: um choque de realidade.

Impacto na prática

Se a tendência apontada pelo Datafolha e pela leitura da Folha se confirmar nas urnas, a disputa do segundo turno pode permanecer apertada até o fim — com efeitos práticos sobre quem administra o Orçamento, a política social e o diálogo com o Congresso a partir de 2027. Em hipótese, um país sob governo reeleito ou sob mudança de comando pode ver prioridades distintas em preços, emprego e renda, temas que a coluna destaca como sensíveis ao eleitor de menor renda.

No curto prazo, a mobilização nas ruas e nas redes — inclusive o “Exército de Lula” citado por Torres Freire — pode alterar o clima político e a percepção de risco entre investidores e consumidores, sem garantir resultado eleitoral. Em tese, a recuperação de votos entre jovens e no Nordeste sugerida pelo Datafolha pode ampliar a volatilidade da campanha, enquanto a memória de pesquisas que subestimaram a direita desde 2018 continua a frear conclusão prematura.

O quadro descrito pela Folha sugere que governo e oposição passam a disputar não só intenções de voto, mas a capacidade de traduzir avaliação de desempenho e temas do cotidiano em apoio duradouro. Se o “choque de realidade” descrito por Torres Freire tiver continuidade, o segundo turno pode se definir menos por narrativas de “barbada” e mais pela capacidade de cada lado de sustentar mobilização e mensagem econômica até a votação — hipótese que só as urnas poderão confirmar.

Fontes: Folha Mercado

Leia mais em: www.mundodosnegocio.com.br