Estudos da FAPESP mapeiam trajetória de cotistas da universidade ao mercado de trabalho

Revista Pesquisa FAPESP reúne estudos sobre evasão, permanência de indígenas e quilombolas e redes raciais no emprego 14 anos após a Lei de Cotas.
Foto: Matheus Bertelli (Pexels)
A Lei de Cotas (12.711/2012), que completou 14 anos em 2026, mantém o debate sobre inclusão no ensino superior. Reportagem da Revista Pesquisa FAPESP publicada nesta terça-feira (20) reúne estudos da FAPESP sobre evasão, permanência e trajetória profissional de cotistas.
Entre 2013 e 2024, mais de 1,4 milhão de pessoas ingressaram em instituições federais por cotas, segundo o Censo da Educação Superior do Inep. No Censo do IBGE, entre 2010 e 2022 o percentual de pessoas com 25 anos ou mais com diploma superior mais do que duplicou entre pretos e pardos; entre brancos, o aumento ficou em torno de 55%.
Nas estaduais paulistas, a Unesp — pioneira no Estado no vestibular 2014 — tem maioria de ingressantes de escola pública desde 2017. A Unicamp reservou vagas para estudantes trans, travestis e não binários no vestibular 2026. Na USP, que aderiu em 2018, 28,3% dos ingressantes se declararam pretos, pardos e indígenas em 2025.
O que aconteceu
A lei federal reserva pelo menos 50% das vagas em instituições federais a quem cursou o ensino médio em escola pública, com critérios de renda e étnico-raciais. Em 2016, pessoas com deficiência passaram a integrar a reserva; em 2023, a Lei nº 14.723 incluiu quilombolas, baixou o teto de renda per capita de 1,5 para 1 salário mínimo e fez candidatos às cotas disputarem primeiro a ampla concorrência.
Em 2024, 49% dos cotistas em federais concluíram a graduação, acima dos 42% dos demais ingressantes, segundo o Inep — ainda assim, a maioria dos estudantes, cotistas ou não, não conclui o curso.
Na FCT-Unesp, em Presidente Prudente (SP), Sueyla Ferreira da Silva dos Santos lidera projeto da FAPESP que usa aprendizado de máquina para classificar risco de evasão com dados de mais de 50 mil alunos em uma década. O modelo analisa notas, frequência, reprovações, curso e distância da moradia e pode sinalizar o risco já no primeiro semestre. Nesse período, alunos de ações afirmativas reprovam mais; Santos aponta como hipótese o atraso de bolsas e auxílios. Quando o suporte chega, diz ela, “esse problema se anula” e o rendimento se iguala ao da ampla concorrência. “Já sabemos o que faz eles saírem”, afirma. “Queremos saber o que faz eles permanecerem.”
Na Unicamp, o antropólogo José Maurício Arruti, com apoio da FAPESP, estuda indígenas e quilombolas e aponta lacunas de dados: quilombolas só entraram no Censo Demográfico em 2022 e no Censo da Educação Superior em 2024. A Unicamp chegou a receber até 80% de seus alunos indígenas de São Gabriel da Cachoeira (AM); distância e custo de passagens dificultam o retorno às férias. A universidade criou espaços de acolhida e o ProFIIVI, de adaptação no primeiro ano. Arruti lembra que nem toda interrupção é fracasso: um estudante indígena de engenharia agrícola voltou à aldeia após aprender o que considerava necessário.
No Observatório de Desigualdades no Ensino Superior e Mercado de Trabalho do Insper, coordenado por Ursula Mattioli Mello e apoiado pela FAPESP, a equipe cruzou Inep e Rais para seguir mais de 20 milhões de estudantes que ingressaram entre 2010 e 2016. A raça foi o fator mais forte na homofilia de rede: brancos indicam mais brancos e negros, mais negros, mesmo após turmas heterogêneas. Quando um ex-aluno vira gerente, sobe a contratação de colegas da mesma turma, com o mesmo recorte racial. O efeito é maior em finanças, administração, economia, engenharia e tecnologia da informação; menor em educação e medicina. A próxima fase testa a hipótese de salários ou postos piores para pretos, pardos, indígenas e amarelos em relação a colegas brancos da mesma turma.
A reportagem acompanha Denilson Camico, 25, da etnia Baré, que saiu de São Gabriel da Cachoeira para a Unicamp pelo vestibular indígena, fez intercâmbio em Portugal e iniciação científica com bolsa da FAPESP e deve se graduar em pedagogia no fim de 2026.
Impacto na prática
Os achados sugerem que o primeiro semestre pode ser decisivo para a permanência quando bolsas demoram a chegar. Em hipótese, alertas estatísticos e programas interculturais podem ajudar a reduzir evasão sem tratar toda saída como fracasso — quando estudantes indígenas retornam ao território após cumprir objetivos próprios.
No emprego, a homofilia de rede descrita pelo Insper pode, em tese, limitar o retorno econômico do diploma para parte dos formados não brancos. Se a próxima fase confirmar diferenças salariais, o padrão de indicação pode, no Brasil, reforçar desigualdades em setores que mais usam redes, como finanças e tecnologia.
Quatorze anos depois da Lei de Cotas, as pesquisas apontam acesso ampliado e conclusão melhor entre cotistas nas federais, ao lado de gargalos de permanência, dados incompletos sobre indígenas e quilombolas e redes que, em hipótese, podem continuar filtrando oportunidades após o diploma.
Leia mais em: mundodosnegocio.com.br