Lane do BCE reforça linhas de liquidez em euro e amplia alcance do EUREP

Em Xangai, Philip R. Lane defende o EUREP reforçado e as linhas de swap como backstop para a transmissão monetária e o papel internacional do euro.
Foto: Masood Aslami (Pexels)
O membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu (BCE), Philip R. Lane, defendeu nesta quarta-feira (21) em Xangai que as linhas internacionais de liquidez em euro são essenciais para complementar o arcabouço doméstico de refinanciamento e preservar a transmissão da política monetária. Em almoço do CF40-Euro50 sobre o sistema monetário além do dólar, Lane argumentou que choques de demanda por liquidez em euro no exterior ou falhas nos fluxos transfronteiriços, sem esse backstop, poderiam pressionar as taxas do mercado monetário e prejudicar mercados de títulos e o sistema bancário.
O dirigente lembrou que a economia mundial atravessa mudanças estruturais ligadas à geopolítica e ao sistema financeiro internacional, com ambiente potencialmente mais volátil. Nesse cenário, linhas com preço de última instância existem para serem usadas sobretudo em crises — mas sua mera existência já ajuda a conter dinâmicas adversas. Evidências empíricas, segundo ele, apontam que as linhas do BCE têm sido eficazes em reduzir pressões sobre os mercados de funding em euro.
O que aconteceu
Lane detalhou a decisão, tomada este ano, de reforçar a facilidade de recompra do Eurosistema para bancos centrais (EUREP), torná-la mais flexível e ampliar o alcance geográfico. Sob o EUREP, o Eurosistema oferece liquidez de backstop em euro a bancos centrais de fora da área do euro, contra colateral de alta qualidade denominado em euro e com mitigadores de risco. O quadro atualizado prevê, em princípio, acesso permanente para todos os bancos centrais, salvo exclusões por lavagem de dinheiro, financiamento do terrorismo ou sanções internacionais.
Bancos centrais habilitados recebem empréstimos em euro precificados à taxa das operações principais de refinanciamento (main refinancing operations, MRO) mais um spread definido pelo Conselho do BCE, para preservar o caráter de backstop. A maturidade de cada operação vai de um dia a uma semana e pode ser prorrogada; o teto por banco central é de 50 bilhões de euros. Após o onboarding, o saque fica disponível a partir do quarto trimestre de 2026. Mais de trinta bancos centrais manifestaram interesse nos últimos seis meses, e a adesão dos primeiros parceiros estrangeiros à facilidade reforçada foi concluída no início de outubro.
As linhas de swap complementam o EUREP. Enquanto o repositório exige colateral em euro — o que amplia o acesso, mas limita o papel da facilidade —, os swaps podem operar contra colateral em moeda local e apoiar com mais força o canal de crédito bancário, ao permitir que o banco central receptor empreste euros a bancos domésticos. Lane ressaltou que swaps envolvem riscos maiores e devem ir a jurisdições com soberano altamente classificado e com potencial de impacto material sobre a transmissão monetária da área do euro em caso de default ou vendas forçadas.
O que isso pode mudar
Na leitura de Lane, o EUREP poderia impulsionar o mercado de títulos denominados em euro e a iniciativa da união de poupança e investimento, ao incentivar gestores de reservas — investidores pouco sensíveis a preço — a manter dívida em euro, inclusive de prazos mais longos e de soberanos menos líquidos, além de títulos supranacionais reconhecidos pelo Eurosistema, como os da Comissão Europeia. A oferta de até 50 bilhões de euros em liquidez no mesmo dia, fora do mercado, reforçaria essa atratividade.
As linhas também poderiam fortalecer o papel internacional do euro em faturamento e liquidação comercial e na emissão de dívida, seja por novo crédito em euro, seja por troca de moeda em empréstimos antes feitos em divisas estrangeiras. Um euro mais usado internacionalmente tenderia a ampliar o efeito da política do BCE sobre a demanda externa e a reduzir a sensibilidade dos preços de importação a choques, ao favorecer o faturamento em euro — embora qualquer expansão de passivos de curto prazo em euro exija monitoramento para evitar desalinhamentos de maturidade.
Fontes: ECB Press — Philip R. Lane: Euro liquidity lines and the international monetary system
Fontes: ECB Press
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