Panetta no Comitê de Desenvolvimento alerta para fragmentação e apoia Banco Mundial

Panetta no Comitê de Desenvolvimento alerta para fragmentação e apoia Banco Mundial

Em Banguecoque, o governador do Banco da Itália defendeu cooperação multilateral, capital privado e Inteligência Artificial para o avanço do desenvolvimento.

Foto: Rafael Minguet Delgado (Pexels)

O governador do Banco da Itália, Fabio Panetta, apresentou em Banguecoque, em 15 de outubro de 2026, a posição da circunscrição que reúne Albânia, Grécia, Itália, Malta, Portugal, San Marino e Timor-Leste na 114ª reunião do Comitê de Desenvolvimento, órgão ministerial conjunto dos conselhos de governadores do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre a transferência de recursos reais a países em desenvolvimento. O texto foi divulgado pelo Banco de Compensações Internacionais (Bank for International Settlements, BIS).

Panetta descreveu um cenário em que tensões geopolíticas, conflitos e fragmentação econômica moldam a economia global, com novos choques em energia, fertilizantes e logística alimentando a inflação, enfraquecendo a confiança e restringindo o consumo em 2026 — com impacto desproporcional nas economias emergentes e em desenvolvimento.

O que aconteceu

Na declaração, a circunscrição apoiou o Grupo Banco Mundial (World Bank Group, WBG) em soluções para erradicar a pobreza e avançar o desenvolvimento por meio de crescimento inclusivo, criação de empregos, investimento em capital humano e infraestrutura, acesso a financiamento e proteção social. Ação climática, boa governança, transparência e igualdade de gênero deveriam atravessar estratégias e implementação; multilateralismo e cooperação internacional foram apontados como essenciais.

Panetta elogiou a agenda de reformas do WBG, que combina maior eficácia operacional com prioridades estratégicas renovadas, e pediu foco sustentado em qualidade, impacto e resultados tangíveis, com melhor uso do conhecimento e da pesquisa do grupo. Saudou o Plano de Implementação de Educação e Competências, com ênfase em formação alinhada ao emprego, e o apoio forte a Parcerias Globais de Competências (Global Skill Partnerships) como forma de transformar necessidades complementares de mercado de trabalho em ganhos compartilhados. Citou a análise do WBG sobre parcerias da Itália com a Tunísia, estendidas à Etiópia, como exemplo replicável quando os programas se alinham à demanda por habilidades e à prontidão institucional.

Sobre saúde, destacou sistemas resilientes como base do capital humano, os Compromissos Nacionais de Saúde e o Plano de Metas de Saúde, além da iniciativa AIM2030 na África, que liga fabricação local e regional a empregos e preparação para pandemias. Surtos recentes, incluindo ebola na República Democrática do Congo, ilustrariam o valor do financiamento “Day Zero” do WBG para acesso rápido a recursos em emergências sanitárias.

A Inteligência Artificial (IA) foi tratada como instrumento potencial para a missão do WBG. Segundo a declaração, o Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2026 sobre IA sugere que a adoção ampla poderia elevar o crescimento potencial nas economias emergentes e em desenvolvimento em 0,8 ponto percentual ao ano. Panetta pediu investimentos em infraestrutura digital e energética, capital humano e competências digitais, abordagens regionais de conectividade e uma combinação adequada de políticas para gerir riscos, com avaliação rigorosa de impacto.

No clima, acolheu a extensão do Plano de Ação sobre Mudança Climática e viu mérito no reengajamento seletivo do WBG em energia nuclear, em cooperação próxima com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e com os mais altos padrões de segurança. Sobre financiamento, saudou a estratégia de Mobilização de Capital Privado (Private Capital Mobilization, PCM) e o objetivo de criar uma classe de ativos investível com padrões comuns de preparação de projetos, divulgação e risco de crédito — ressalvando, porém, que a PCM nem sempre é viável e que o WBG deve manter flexibilidade e capacidade de empréstimo contracíclico, sobretudo a países de baixa renda e frágeis.

Em capital e participação acionária, acolheu a extensão de dois anos dos períodos de subscrição do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (IBRD) e da Corporação Financeira Internacional (IFC). A Associação Internacional de Desenvolvimento (IDA) foi reafirmada como fonte vital para países de baixa renda e frágeis, com expectativa da revisão intermediária da IDA21 e apoio a uma reposição bem-sucedida da IDA22, em especial na África. Panetta também reiterou apoio firme aos esforços do WBG na Ucrânia e citou iniciativas italianas — Plano Mattei, café, mineração responsável e a conferência AGORA — alinhadas a prioridades do grupo.

O que isso pode mudar

Se a orientação da circunscrição for acompanhada na prática do WBG, a combinação de reformas operacionais, PCM com padrões comuns e maior uso de conhecimento poderia redesenhar o papel do Banco Mundial na arquitetura financeira do desenvolvimento e facilitar a atração de poupança privada sem elevar a dívida externa dos países. A escala das Parcerias Globais de Competências e o financiamento “Day Zero” poderiam acelerar respostas a choques sanitários e de mercado de trabalho, enquanto o impulso à IA e à infraestrutura digital poderia, no horizonte do relatório citado, ampliar o crescimento potencial — desde que riscos e impactos sejam monitorados de perto.

Por outro lado, a própria declaração alerta que a mobilização de capital privado pode trazer riscos adicionais de financiamento e implementação. Manter flexibilidade instrumental e empréstimo contracíclico para os mais vulneráveis continuaria, nessa leitura, condição para que o apoio multilateral não deixe para trás quem menos absorve choques de fragmentação e inflação.

Fontes: BIS Speeches — Statement, meeting of the Development Committee (Fabio Panetta)

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