Reedição de Cyberselfish reacende crítica ao techno-libertarianismo do Vale

Paulina Borsook relança Cyberselfish pela Tin House e aponta a cultura anti-regulação do Vale do Silício, em entrevista ao TechCrunch.
Ilustração: Yaroslav Shuraev (Pexels)
Depois de anos fora de catálogo, Cyberselfish, ensaio de Paulina Borsook publicado em 2000 sobre a cultura techno-libertária do Vale do Silício, volta em nova edição da Tin House. Em entrevista por videoconferência ao TechCrunch, a autora descreve o livro como quase um “diário de viagem” das tentativas de entender essa influência na região.
O interesse se reacendeu no ano passado, quando Gil Durán, autor de Nerd Reich, pediu a recuperação da carreira de Borsook — que, segundo ele, “viu tudo com muita clareza e tentou nos alertar há 25 anos”. Mais tarde, o The New York Times registrou novos leitores buscando compreender por que a indústria de tecnologia “perdeu o rumo”.
O que aconteceu
Longo tempo esgotado, o volume reaparece com introdução inédita de Durán. Borsook afirmou que, após o lançamento original, “ninguém se interessava por qualquer coisa que eu pudesse dizer, sobre tecnologia ou não”, e que ainda não publicou um segundo livro. No ano passado, porém, notou preços de exemplares usados em alta, posts espontâneos nas redes sobre a importância da obra e contatos de “acadêmicos europeus”, movimento que desembocou em mais cobertura e na reedição.
Para ela, o techno-libertarianismo é “um olhar de criança de 12 anos sobre o mundo”: um “cesto de crenças” “violentamente anti-regulação”, embora “nenhum setor da sociedade tenha se beneficiado mais e sofrido menos com o governo do que esses caras”. Mesmo depois do estouro da bolha pontocom, disse, a atitude “ficou ali, percolando, contaminando os aquíferos. Não foi corrigida, e só se espalhou mais e mais”.
Na conversa com Anthony Ha, Borsook situou a mudança cultural a partir da abertura de capital da Netscape e da chegada de uma lógica financeira ao Vale. Citou casos como Airbnb e Uber como jogadas financeiras, não inovação tecnológica no sentido que ela defende, e como exemplos de resistência a qualquer regulação ou papel de “bom ator comunitário”. Distinguiu no livro os “Ravers” — mais liberais culturalmente — dos “Gilders”, mais conservadores, e afirmou que a divisão ainda vale: de um lado, figuras alinhadas a nacionalismo cristão e catolicismo conservador; de outro, culturas de Burning Man, experimentos sociais e círculos ligados ao altruísmo eficaz e à inteligência artificial (IA).
Sobre a IA, foi direta: vê o momento atual como “um grande esquema Ponzi”, com a mesma retórica de genialidade e rejeição à regulação. Também criticou o deslocamento de executivos para o lado de Nevada no Lago Tahoe em busca de impostos menores, contrastando essa fuga com décadas de intervenção estatal que, em sua leitura, ajudam a preservar a qualidade ambiental do lugar. A editora pediu que não mudasse “uma palavra” do texto de 2000; Borsook escreveu apenas uma breve introdução sobre como a obra “voltou dos mortos”.
O que isso pode mudar
A reedição pode, em tese, alimentar de novo o debate sobre quanto da atual aproximação entre big techs e poder político é ruptura e quanto é continuidade do clima anti-regulação que Borsook mapeou há um quarto de século. A própria autora enxerga “mais continuidade” do que virada abrupta.
Para jovens em ciência da computação ou engenharia que rejeitam o que chama de “lixo tóxico” do setor, ela admite não ter resposta clara: a IA absorveria boa parte do capital de investimento, e caminhos em governo ou no terceiro setor pareceriam estreitos. Reforma interna das grandes empresas? Mostra ceticismo — sugere que, se o alinhamento político deixar de ser conveniente, a postura pode mudar. Ainda assim, diz torcer por quem busque “tecnologia apropriada” fora dos hiperescaladores. Se a nova edição ampliar leitores, o efeito mais plausível é cultural: recolocar no centro a pergunta de quanto a indústria reconhece a dívida histórica com o Estado que a financiou e protegeu.
Fontes: TechCrunch
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