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Açúcar em alta e usinas com desconto podem destravar fusões e aquisições

Açúcar em alta e usinas com desconto podem destravar fusões e aquisições

BTG aponta desconto de 25% nas últimas cinco aquisições de usinas e diz que preços altos do açúcar e do etanol podem abrir janela para M&A.

Foto: Siarhei Nester (Pexels)

O mercado brasileiro de açúcar e etanol vive um contraste que, segundo o BTG Pactual, pode abrir espaço para fusões e aquisições. Os preços das duas commodities se recuperam e melhoram as perspectivas de rentabilidade das usinas, mas o valor dos ativos industriais segue abaixo da média histórica. A leitura consta do relatório Food For Thought, divulgado na quarta-feira, 21 de outubro de 2026, pelos analistas Thiago Duarte e Guilherme Gutilla.

Nas últimas cinco aquisições do setor sucroenergético, o valor médio negociado foi de US$ 54 por tonelada de capacidade de moagem, cerca de 25% abaixo da média histórica de US$ 72. Para o banco, o descompasso entre commodities mais caras e usinas ainda descontadas favorece quem quer reorganizar portfólios e negociar unidades produtivas.

“Os preços das commodities acima dos níveis considerados normais podem criar uma janela atrativa para a monetização de ativos”, afirmam os analistas.

O que aconteceu

Segundo o BTG, o desconto reflete anos de pressão sobre a rentabilidade das usinas, com volatilidade do açúcar e expansão do etanol de milho. Os preços das commodities voltaram a subir, mas as avaliações dos ativos ainda não acompanharam por completo essa recuperação.

Após oscilar entre 13 e 16 centavos de dólar por libra-peso no início de 2026, o açúcar passou a ser cotado entre 20 e 21 centavos, acima dos cerca de 17 centavos que o banco considera mais próximos do equilíbrio. O etanol também se valoriza, sustentado pelos estoques reduzidos no Centro-Sul, principal região produtora de cana e etanol do país. Com preços mais altos, as usinas tendem a ter melhores resultados no curto prazo, o que pode aumentar o interesse por compra e venda de ativos.

Isso não significa que o setor tenha superado seus problemas. O Brasil produz cerca de 37,5 bilhões de litros de etanol por safra, dos quais entre 11 bilhões e 11,4 bilhões vêm do milho e cerca de 26 bilhões, da cana, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Com mais oferta, o etanol de cana enfrenta concorrência maior, e as perspectivas de rentabilidade de longo prazo ficam pressionadas — o que ajuda a explicar o desconto nos ativos.

O banco avalia que a valorização do açúcar pode ser temporária. Os analistas projetam que a restrição de oferta no comércio internacional diminua a partir do segundo trimestre de 2027, com a nova safra brasileira, e estimam retorno gradual a cerca de 17 centavos de dólar por libra-peso se a oferta se confirmar.

Na Adecoagro, a venda da usina Monte Alegre, em Minas Gerais, com capacidade de 1,2 milhão de toneladas de cana por ano, ilustra o movimento. O valor não foi divulgado; o BTG estima entre US$ 60 milhões e US$ 70 milhões pelos múltiplos recentes, cerca de 5% do valor de mercado da companhia. Poucas semanas antes, a empresa adquiriu a usina Caarapó, antes da Raízen, em Mato Grosso do Sul. Para os analistas, a combinação sugere busca por eficiência e concentração geográfica, não saída do setor.

Segundo a StoneX, o custo para produzir açúcar VHP — o tipo mais exportado pelo Brasil — está em torno de R$ 1.730 por tonelada na usina e chega a R$ 1.875 por tonelada com o produto pronto para exportação (FOB).

Impacto na prática

Se a janela descrita pelo BTG se confirmar, preços elevados e usinas ainda abaixo da média histórica podem acelerar fusões, aquisições e vendas de unidades no setor sucroenergético. Em tese, isso pode alterar a concentração geográfica de usinas e a oferta local de açúcar e etanol onde houver reorganização de portfólios, com possíveis efeitos indiretos sobre emprego industrial e cadeias ligadas à moagem.

No curto prazo, preços mais altos podem melhorar o caixa das usinas e, por hipótese, facilitar negociações. A projeção de retorno do açúcar a cerca de 17 centavos a partir de 2027, se a oferta se confirmar, sugere que a janela de monetização pode ser limitada no tempo. No longo prazo, a concorrência do etanol de milho pode continuar pressionando a rentabilidade das usinas de cana.

Em hipótese, um país com peso relevante na exportação de açúcar e na produção de etanol, como o Brasil no recorte do relatório, pode ver mais negócios de ativos enquanto commodities e múltiplos permanecerem desalinhados. Nada disso está garantido: o BTG liga o desconto a fatores estruturais e trata a alta atual do açúcar como potencialmente temporária.

Assim, o cenário aponta menos para uma virada definitiva e mais para uma janela condicionada a preços, oferta futura e à estratégia de cada companhia — inclusive a de concentrar operações onde já há estrutura produtiva, como sugere o caso Adecoagro.

Fontes: Exame — Açúcar em alta e usinas com desconto; fusões e aquisições; açúcar; etanol

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