Google e Prune Nourry recriam com IA estúdios perdidos de escultoras em Paris

Google e Prune Nourry recriam com IA estúdios perdidos de escultoras em Paris

Documentário com inteligência artificial reconstrói ateliês de 18 escultoras históricas e acompanha a exposição Visionaries no Petit Palais.

Foto: Abhishek Navlakha (Pexels)

A Google e a artista Prune Nourry lançaram um documentário que usa inteligência artificial (IA) para recriar os ateliês perdidos de escultoras que trabalharam em Paris entre o fim do século XIX e o início do XX. A peça acompanha a exposição "Visionaries", aberta em 20 de outubro de 2026 no Petit Palais, em paralelo à Art Basel Paris.

O filme de cerca de dez minutos, dirigido por Vincent Lorca, parte de um ano de pesquisa com historiadores da arte e busca devolver ao centro da narrativa mulheres que, por muito tempo, apareceram na história da arte sobretudo como modelos ou musas — e não como autoras.

O que aconteceu

Durante décadas, o trabalho de escultoras talentosas em Paris ficou em segundo plano, apesar das restrições sociais e do acesso limitado à formação artística numa cena dominada por homens. Em "Visionaries", Nourry apresenta retratos monumentais em gesso que celebram 18 escultoras históricas e seus legados criativos.

Para ampliar essas biografias, a artista e o Google Arts & Culture — área da empresa dedicada a projetos culturais digitais — colaboraram com Lorca no documentário. Três historiadoras da arte reuniram cartas, diários e retratos fotográficos de mulheres que viveram e criaram na capital francesa. Como existem poucas imagens históricas dos ateliês em si, Lynn Cherny, tecnóloga criativa residente no Google Arts & Culture Lab, empregou modelos generativos e de edição de imagem da Google para reconstruir visualmente espaços de trabalho de figuras como Nancy Elizabeth Prophet, Jane Poupelet e Camille Claudel.

Com uma ferramenta personalizada construída com o Gemini, o modelo de IA da Google, a equipe gerou modelos tridimensionais a partir de fotos de arquivo e animou trajetórias de câmera. O resultado permite ao espectador percorrer virtualmente esses estúdios recriados e aproximar-se do cotidiano criativo dessas artistas.

Em outra sequência, concebida por Nourry e Lorca, a edição com IA faz alunas desaparecerem gradualmente de uma fotografia de arquivo do ateliê de Antoine Bourdelle, restando apenas os homens. O efeito ilustra, de forma visual, como essas criadoras foram apagadas da memória coletiva.

A exposição permanece no Petit Palais de 20 de outubro de 2026 a 30 de janeiro de 2027, com a instalação do filme nas galerias do museu e um trailer dos bastidores disponível online no Google Arts & Culture. O anúncio foi assinado pela própria Nourry e por Amit Sood, vice-presidente do Google Arts & Culture.

O que isso pode mudar

A parceria sugere que a IA generativa pode deixar de ser apenas ferramenta de produção comercial e passar a atuar como instrumento de mediação histórica — sobretudo quando o arquivo material é escasso. Se museus e instituições culturais adotarem abordagens semelhantes com rigor documental, ateliês, oficinas e espaços de criação pouco fotografados poderiam voltar ao debate público sob forma imersiva, sem substituir a pesquisa acadêmica, mas ampliando o alcance dela.

O gesto de "apagar" as mulheres da foto de Bourdelle também pode influenciar a forma como exposições e documentários tratam o viés de gênero na história da arte: em vez de apenas narrar a exclusão, mostram o mecanismo visual do apagamento. Isso poderia, no médio prazo, incentivar novas revisões de acervos e currículos, com mais espaço para escultoras e outras criadoras cuja trajetória foi marginalizada.

Ainda assim, o impacto depende de transparência sobre o que é reconstrução especulativa e do que é evidência arquivística. Se o público e os profissionais do setor tratarem os modelos 3D como hipóteses informadas — e não como cópias literais do passado —, projetos como "Visionaries" tendem a reforçar o papel da tecnologia como aliada da memória cultural, e não como substituta do arquivo.

Fontes: Google Blog.

Fontes: Google Blog

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