Live Nation aposta em projetar e construir as próprias casas de show

A empresa acelera o Blueprint Studio e abre casas como The Truth, em Nashville, para ocupar o meio-termo entre teatro e arena.
Foto: NAYEF ALENEZI (Pexels)
A Live Nation deixa de depender só de teatros e anfiteatros de terceiros e passa a projetar e construir salas próprias para ocupar lacunas de capacidade. Em reportagem na Fast Company desta quarta-feira (21), a companhia chama o movimento de “investimento significativo e de longo prazo” para repensar a experiência de ver música ao vivo.
O esforço cobre mercados dos Estados Unidos — de Richmond, na Virgínia, a Shakopee, em Minnesota — e chega ao exterior. O Blueprint Studio, braço interno de desenvolvimento e design, lidera projetos pensados para público e artista, e não só para o calendário de turnês.
O que aconteceu
Por décadas, a empresa promoveu e operou shows em espaços ao redor do mundo, levando atos em turnê a qualquer casa que o artista pudesse encher. Agora o foco é desenhar e erguer salas onde a demanda existe, mas falta o tamanho certo. Desde a fusão com a Ticketmaster, em 2010 — negócio então estimado em cerca de US$ 2,5 bilhões —, a Live Nation Entertainment consolidou-se entre os maiores nomes do setor e, em paralelo, montou um portfólio próprio de casas.
Entre os exemplos estão o 713 Music Hall, aberto em 2021 em Houston; o Tides, sala sob medida de 1.500 lugares em Hong Kong; e a reforma de 2024 do Paramount Theater, no Brooklyn. As casas buscam abraçar a identidade local e usar o aprendizado com plateias e artistas no desenho. Para quem promove o show, vende o ingresso e ainda hospeda o evento no próprio espaço, o arranjo chega perto do máximo de integração vertical no entretenimento ao vivo.
O ganho financeiro é relevante. Em venues que possui, a companhia captura fatia bem maior da bilheteria; as vendas de ingressos, segundo ela, caminham para crescimento de mais de 10% na comparação anual. Só no segundo trimestre de 2026, os shows geraram US$ 6,4 bilhões em receita com 49 milhões de fãs no mundo. Jordan Zachary, presidente global de venues da Live Nation, afirma que a demanda por música ao vivo segue em alta, mas a infraestrutura de salas “nem sempre acompanhou” o ritmo. A expansão mira mercados-chave em que artistas querem tocar e o público é forte, porém “as venues certas ainda não existem”.
Em 2026 o ritmo acelerou. Entre as estreias está The Truth, sala de 4.400 lugares inaugurada em outubro em Nashville, projetada pelo Blueprint Studio. A cidade tem muitas casas de música, mas poucas no meio-termo entre teatro e grande arena — intervalo que The Truth busca ocupar. David Codiga, presidente do Blueprint Studio, observa que há lacunas “em quase qualquer mercado do país e até no exterior”; a empresa não pretende resolver todas, “mas é daí que se começa”.
O nome remete à frase do compositor country Harlan Howard — “tudo o que você precisa para escrever uma canção country são três acordes e a verdade”. Mietra Beyer, responsável por marca e experiência no Blueprint Studio, diz que o desenho mira proximidade entre palco e plateia; a citação de Howard virou o fio conceitual do projeto. Miranda Lambert se apresentou na abertura, em 2026.
O que isso pode mudar
Se a estratégia se consolidar, a Live Nation poderia reforçar o controle sobre promoção, ticketing e operação da casa e ampliar margens onde hoje divide receita com donos de espaços alugados. Em hipótese, salas no meio da curva de capacidade tendem a atrair turnês que hoje saltam de teatros pequenos para arenas grandes, com perda de intimidade ou de escala.
O desenho localizado, com estúdio interno, também pode diferenciar a experiência do fã. Resta ver se o investimento de longo prazo vira rede densa o bastante para acompanhar a demanda — e se rivais acompanharão a corrida por salas no meio-termo. Por ora, o sinal é claro: o show não cabe mais só no calendário; cabe, cada vez mais, no projeto da própria casa.
Fontes: Fast Company (Nate Berg, 21/10/2026).
Leia mais em: mundodosnegocio.com.br